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Tawa, o Urso da Tempestade: Uma Metáfora para a Jornada Terapêutica

  • Foto do escritor: Catarina Carvalho
    Catarina Carvalho
  • 6 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura
Tawa, o Urso da Tempestade

Nos tempos antigos, quando o céu e a terra falavam àqueles que sabiam escutar, vagueava um grande urso chamado Tawa, o Urso da Tempestade. O seu pelo era escuro como as nuvens de trovoada, os seus olhos brilhavam com a sabedoria de mil invernos, e a cada passo seu, a terra tremia como os tambores do Grande Espírito.


Tawa não era apenas um guardião da floresta — ele era a ponte entre o povo e os deuses do céu. Quando as tempestades se formavam e os relâmpagos dançavam sobre as montanhas, as tribos sabiam que Tawa estava em movimento, caminhando entre mundos para proteger o equilíbrio da natureza.


Num inverno, as tempestades chegaram mais cedo e com mais força do que nunca. Os rios transbordaram, os ventos uivaram pelas florestas de pinheiros, e o povo do vale temia pelas suas casas. Os anciãos reuniram-se debaixo da árvore sagrada e chamaram por Tawa. Através da neve e da névoa em turbilhão, ele veio — uma figura imponente, o seu hálito gelando o ar.


O urso subiu ao cume onde o céu toca a terra e rugiu para dentro da tempestade. A sua voz ecoou por toda a terra, acalmando os ventos e afastando as nuvens. Os espíritos da tempestade, reconhecendo o poder ancestral dentro de Tawa, recuaram para além do horizonte.


Desde esse dia, o povo passou a esculpir a imagem de Tawa em pedra e madeira, honrando-o como o Urso da Tempestade que os salvou. E no silêncio após cada tempestade, escutavam o suave som das suas pegadas, lembrando-os de que o espírito da terra ainda caminhava entre eles.


Para quem escuta com o corpo e com a alma, certas histórias tocam profundamente — porque falam não apenas do que acontece lá fora, mas do que se move cá dentro.


Tawa, o Urso da Tempestade, é mais do que um mito ancestral: é imagem viva da força que se ergue em nós quando tudo parece ruir. Tal como ele, também nós somos chamados, em tempos de crise, a subir à montanha interior, a escutar o caos e a encontrar forma de restaurar o nosso equilíbrio.


Este conto ecoa, de forma simbólica e profunda, aquilo que vivemos ao entrar num processo terapêutico.


É sobre isso que escrevo neste artigo: a travessia emocional da tempestade e o reencontro com a nossa força essencial.



Quando o corpo fala: o início da tempestade


Na história, os sinais chegam primeiro pela natureza: ventos que não cessam, águas que transbordam, um clima imprevisível.


Na vida, estas tempestades podem manifestar-se através da ansiedade, insónia, tensão no corpo, conflitos relacionais ou uma sensação generalizada de desconexão.


“O corpo fala aquilo que a mente ainda não sabe dizer.”

A Psicossomática lembra-nos que o corpo fala — muitas vezes antes de termos consciência do que se passa. É nesse momento que começa a urgência de escuta e de cuidado.


“Toda tempestade interior começa com um sussurro do corpo — e cresce quando não é escutada.”

O pedido de ajuda: escutar o apelo


Na lenda, os anciãos chamam por Tawa, sabendo que não conseguem enfrentar a tempestade sozinhos.


Este apelo ressoa com o momento em que alguém decide procurar terapia. É um passo de humildade e de coragem: o reconhecimento de que precisamos de apoio para atravessar o que estamos a viver.


“Pedir ajuda é um gesto de coragem — é reconhecer que merecemos ser acompanhados. A cura começa no momento em que nos permitimos ser vistos.”

A subida: enfrentar o que vive dentro


Tawa sobe à montanha onde céu e terra se encontram. Lá, confronta os espíritos da tempestade.


Na psicoterapia, esse é o caminho para dentro — para as emoções, memórias, padrões e experiências guardadas. Trabalhar com o corpo, o sistema nervoso e a história pessoal permite aceder a lugares profundos, onde muitas vezes reside a chave da transformação.


“Enfrentar o que vive dentro não é um caminho fácil — mas é o único que nos devolve a nós mesmos. É preciso subir à nossa própria montanha para encontrar clareza.”

O rugido: dar voz ao que estava silenciado


O urso não ataca — ruge. A sua expressão é tão verdadeira que os espíritos da tempestade recuam.


Em psicoterapia, especialmente quando há espaço para o corpo e o som, começamos a dar expressão a tudo o que foi calado: tristeza, raiva, medo, necessidades antigas.


“A expressão verdadeira não fere — liberta. Quando damos voz ao que estava silenciado, o corpo respira outra vez.”

A acalmia: integrar o vivido


Com a tempestade dissipada, o povo volta a respirar.


Ao longo do processo terapêutico, os sistemas vão-se regulando, a clareza começa a emergir, e a integração é sentida não só na mente, mas também no corpo e nas relações.


A Neurociência do trauma mostra-nos que a segurança interna é cultivada — não imposta — e que o corpo guarda também a memória da cura.


“O silêncio depois da tempestade é onde a alma aprende a descansar. Integração não é esquecer — é viver com presença o que antes doía em ausência.”


A presença que permanece


Mesmo depois da tempestade, o povo sente que Tawa continua a caminhar entre eles.


A psicoterapia deixa marcas — não apenas pelo que se disse, mas pelo que foi sentido e vivido. É uma presença que acompanha e que se torna parte da nossa história interna, mesmo depois de terminar.

“Sentimo-nos acompanhados quando descobrimos que há algo em nós que nunca nos abandonou.”


Uma nota final


A história de Tawa lembra-nos que existe, dentro de cada pessoa, uma força arquetípica de cura — a psicoterapia apenas nos ajuda a recordá-la. Como Tawa, também nós somos feitos de matéria selvagem e sagrada — capazes de acalmar as tempestades.


"A psicoterapia não é um fim em si mesma — é um caminho de reconexão com essa força vital. Um espaço de escuta, presença e transformação."


Sobre mim

Catarina Lourenço de Carvalho

Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.

Especialização em Psicossomática, Epigenética, Trauma, Neurociência e Terapia de Casal.

Musicoterapeuta, Formadora e Supervisora.


Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.


📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677

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