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A Infantilização da Mente Moderna: Reflexões para a Psicoterapia Corporal em Portugal

  • Foto do escritor: Catarina Carvalho
    Catarina Carvalho
  • 23 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

Introdução

Nos dias de hoje, fala-se cada vez mais da “infantilização da mente” — a persistência em adultos de padrões emocionais, cognitivos e relacionais típicos da infância. Esta tendência, amplamente discutida no livro The Coddling of the American Mind de Lukianoff e Haidt (2018), é observada também em Portugal e representa um desafio profundo para a saúde mental contemporânea.


Num contexto marcado pela valorização do prazer imediato, da proteção emocional excessiva e da cultura digital, muitos adultos jovens enfrentam dificuldades em gerir emoções, tolerar o desconforto e assumir a autonomia. Este artigo propõe uma análise integrada deste fenómeno, combinando as contribuições socioculturais e neurobiológicas com uma abordagem terapêutica centrada na psicoterapia corporal somática, mais concretamente na Biossíntese (Boadella, 1997).


A Infantilização da Mente: Uma Perspetiva Cultural e Empírica

O termo “infantilização” descreve o prolongamento de comportamentos e estados emocionais que deveriam ser próprios da infância, mas que se manifestam em adultos (Postman, 1982; Lasch, 1979). Esta tendência é impulsionada por fatores culturais e educacionais que promovem a evitação do desconforto e a superproteção emocional (Lukianoff & Haidt, 2018).


Lukianoff e Haidt (2018) identificam três “grandes inverdades” que alimentam esta cultura:

  • a crença errada de que evitar o desconforto protege o bem-estar;

  • a valorização excessiva dos sentimentos imediatos em detrimento do pensamento crítico;

  • e a visão polarizada da vida como luta entre o bem e o mal.

Estes conceitos ajudam a entender porque muitos jovens apresentam dificuldades crescentes em lidar com adversidades reais.


Em Portugal, dados recentes da Direção-Geral da Saúde e da OCDE confirmam o aumento significativo dos problemas emocionais entre jovens — ansiedade, depressão e stress são cada vez mais comuns. A pandemia de COVID-19 exacerbada este cenário, criando desafios adicionais para a regulação emocional e o desenvolvimento da autonomia.


Além disso, um estudo internacional recente com mais de 32 000 participantes revelou um aumento de cerca de 30% nos níveis de infantilização entre 2011 e 2020, com o abuso emocional a ser a forma mais danosa associada a sintomas depressivos e dificuldades relacionais (Epstein, Bock, Drew, & Scandalis, 2023). Estes dados ajudam a validar empiricamente a dimensão do problema.


A Dimensão Psicossomática: Corpo, Emoção e Maturidade

A infantilização da mente não é apenas um fenómeno psicológico ou cultural — tem uma expressão corporal profunda. Como mostra a teoria da Biossíntese, desenvolvida por Boadella (1997), o corpo é o local onde emoções e memórias ficam inscritas, influenciando a regulação autonómica e os padrões comportamentais.


Van der Kolk (2014) explica que experiências precoces de trauma ou insegurança emocional deixam marcas somáticas que podem dificultar o amadurecimento psicológico, mantendo o indivíduo preso em respostas defensivas. A Teoria Polivagal de Porges (2011) complementa esta visão, ao mostrar como o sistema nervoso autónomo regula as respostas automáticas de luta, fuga ou colapso, que podem ficar cronicamente ativadas em estados de stress, interferindo na maturidade emocional.


Assim, a reconexão com o corpo — através da perceção das sensações, da respiração e do movimento — é fundamental para quebrar este ciclo e promover a maturidade emocional (Boadella, 1997; Porges, 2011).


A Psicoterapia Somática da Biossíntese: Um Caminho para a Maturidade

A Biossíntese propõe um trabalho terapêutico integrativo que articula o corpo, a emoção e a mente para facilitar o crescimento pessoal. Na prática, isto traduz-se em:

  • Trabalho de enraizamento corporal: técnicas de grounding e respiração para restaurar a sensação de segurança interna;

  • Leitura da história corporal: identificação de tensões e bloqueios que revelam emoções não expressas;

  • Estimulação do Self adulto: fortalecimento de recursos internos de apoio emocional e reflexão;

  • Vinculação terapêutica segura: um espaço relacional que permite a reorganização de padrões de dependência emocional.

Estas práticas ajudam a dissolver as tensões e defesas que mantêm a infantilização, promovendo uma integração psicoemocional profunda e a capacidade de enfrentar desafios de forma autónoma e equilibrada (Boadella, 1997; Siegel, 2012).


A Infantilização em Portugal: Dados e Contexto

Embora grande parte da literatura seja norte-americana, os fenómenos descritos são evidentes em Portugal. O aumento das perturbações ansiosas e depressivas nos jovens portugueses, especialmente pós-pandemia, evidencia a urgência de intervenções que promovam a resiliência emocional (Direção-Geral da Saúde, 2022).


Além disso, o sistema educativo português debate atualmente o equilíbrio entre proteção e autonomia emocional, procurando evitar tanto a negligência emocional como a superproteção que limita o crescimento.


O impacto das redes sociais e da cultura digital contribui para uma maior sensibilidade ao desconforto e ao confronto emocional, reforçando as características da infantilização da mente (Roda-Rivera, 2022).


Conclusão

A infantilização da mente moderna é um fenómeno complexo, que resulta da interação entre fatores socioculturais, psicológicos e neurobiológicos. Em Portugal, esta realidade está presente e afeta a saúde mental dos jovens e adultos.


A psicoterapia somática da Biossíntese oferece uma abordagem eficaz para responder a este desafio, promovendo a reconexão corpo-mente, a autorregulação e o desenvolvimento da maturidade emocional. Ao integrar práticas somáticas no trabalho terapêutico, é possível transformar a fragilidade emocional em resiliência experienciada de forma orgânica e sustentável.


Este caminho terapêutico convida-nos a olhar para dentro, a escutar o corpo e a permitir que o crescimento emocional ocorra de forma integrada — um processo que começa pela aceitação do desconforto como parte fundamental do amadurecer (Boadella, 1997; Lukianoff & Haidt, 2018).


Referências

Boadella, D. (1997). Biosynthesis: Somatic and depth psychology. International Institute for Biosynthesis.

Direção-Geral da Saúde. (2022). Relatório sobre saúde mental dos jovens portugueses. [Dados estatísticos internos].

Epstein, R., Bock, S. D., Drew, M. J., & Scandalis, Z. (2023). Infantilization across the life span: A large-scale internet study suggests that emotional abuse is especially damaging. Motivation and Emotion, 47(1), 137–163. https://doi.org/10.1007/s11031-022-09989-4

Lukianoff, G., & Haidt, J. (2018). The coddling of the American mind: How good intentions and bad ideas are setting up a generation for failure. Penguin Press.

Lasch, C. (1979). The culture of narcissism: American life in an age of diminishing expectations. W. W. Norton & Company.

Postman, N. (1982). The disappearance of childhood. Delacorte Press.

Porges, S. W. (2011). The polyvagal theory: Neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. W. W. Norton & Company.

Roda-Rivera, C. (2022, 25 de outubro). The infantilization of society: Why adults act like children. Exploring Your Mind. https://exploringyourmind.com/infantilization-of-society/

Siegel, D. J. (2012). The developing mind: How relationships and the brain interact to shape who we are (2.ª ed.). Guilford Press.

Stollznow, K. (2022, 17 de agosto). The infantilization of elders and people with disabilities. [Link não disponível].

van der Kolk, B. (2014). The body keeps the score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. Viking.


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