top of page

A Arte do Silêncio: Uma Reflexão Sobre Quietude, Sentido e Presença

  • Foto do escritor: Catarina Carvalho
    Catarina Carvalho
  • 23 de nov. de 2025
  • 6 min de leitura

A sociedade contemporânea caracteriza-se por uma avalanche contínua de estímulos: sons, notificações, discursos, imagens e ruído mental (Han, 2017). Nesse contexto, o silêncio tornou-se uma experiência rara, quase estranha, frequentemente associada a vazio, ineficiência ou desconforto. No entanto, diferentes tradições filosóficas, espirituais e terapêuticas, assim como estudos psicológicos recentes, apontam para o valor profundo da quietude. O silêncio, mais do que ausência de som, constitui uma qualidade perceptiva, emocional, somática e relacional que influencia directamente a forma como observamos o mundo e nos observamos a nós mesmos (Klang, 2019).


O presente artigo propõe uma reflexão conceptual sobre a arte do silêncio, entendendo-a como prática e atitude diante da vida. Não se trata de defender um retorno romântico a um ideal de quietude absoluta, mas de compreender como a experiência do silêncio pode restaurar capacidades humanas fundamentais: a escuta, a atenção, a interioridade, a presença plena e a integração somática e emocional. Para tal, analisa-se esta categoria a partir de três eixos principais:

(a) a dimensão filosófica e existencial do silêncio;

(b) o silêncio como fenómeno psicológico, neurocognitivo e somático; e

(c) o silêncio na comunicação e relações humanas.

O objetivo é propor um olhar integrador que permita compreender o silêncio como um recurso de sentido num tempo de dispersão.



O silêncio como dimensão filosófica e existencial

A reflexão sobre o silêncio tem raízes profundas na história da filosofia e da cultura. Desde as tradições orientais até à filosofia contemporânea, o silêncio surge como condição de acesso ao essencial. No taoismo, por exemplo, a quietude é entendida como um retorno à ordem natural, uma forma de harmonização que antecede qualquer formulação conceptual (Lao Tzu, trad., 2003). O silêncio não é ausência, mas abertura para o fluxo da existência. De modo semelhante, no budismo zen, a prática da meditação assenta na escuta do silêncio interior, que permite observar a mente sem se confundir com ela (Suzuki, 2010).


No pensamento ocidental, o silêncio também assume um papel determinante. Heidegger (1959) refere-se ao silêncio como condição para o desvelar do ser; é no recolhimento que o pensamento se torna verdadeiramente pensante. Wittgenstein (1922/2018), na conclusão do Tractatus Logico-Philosophicus, sugere que aquilo de que não se pode falar deve permanecer em silêncio, delimitando assim o espaço entre o dizível e o indizível. O silêncio, neste caso, não é vazio cognitivo, mas fronteira epistemológica.


Autores contemporâneos têm problematizado o impacto do ruído no modo como habitamos o mundo. Han (2017) argumenta que a sociedade do cansaço impede a experiência do silêncio necessário à contemplação, reduzindo a vida a desempenho e produtividade. A ausência de silêncio empobrece a interioridade e cristaliza a dispersão. Assim, recuperar o silêncio representa recuperar também a capacidade de estar consigo e com o outro de forma plena.



A psicologia e a psicoterapia somática do silêncio

Do ponto de vista psicológico e terapêutico, o silêncio desempenha funções essenciais. Estudos indicam que períodos curtos de quietude podem reduzir a activação fisiológica e promover a recuperação do sistema nervoso (Keller et al., 2019). O silêncio não é apenas ausência de estímulo; é um ambiente fértil para o restauro cognitivo, emocional e somático.


A investigação sobre mindfulness destaca a relação entre silêncio e atenção plena. Kabat-Zinn (2003) descreve o silêncio como o “suporte natural” da observação consciente, facilitando a capacidade de notar pensamentos, emoções e sensações sem reagir automaticamente. Neste sentido, a arte do silêncio não é uma técnica, mas um modo de estar: uma disposição para escutar antes de responder, para observar antes de interpretar.

O silêncio permite escutar o corpo e integrar experiências emocionais.

A quietude cria espaço para a libertação consciente de tensões e padrões de stress crónicos, promovendo regulação emocional e reconexão com recursos internos. Assim, o silêncio assume simultaneamente funções cognitivas, emocionais e somáticas.


Outros estudos exploram o impacto da quietude na criatividade. Ziegler (2018) argumenta que, sem períodos de silêncio, o cérebro permanece em hiperactividade, impedindo o processamento profundo necessário à geração de novas ideias. O silêncio, ao reduzir interferências externas, favorece a incubação criativa e o pensamento divergente.


A ausência de silêncio pode ter consequências contraproducentes. Ruído constante, físico ou mental, associa-se a elevados níveis de stress, ansiedade e dificuldade de concentração (World Health Organization, 2020). Integrar momentos de quietude na rotina diária constitui, portanto, uma estratégia preventiva de bem-estar psicológico e somático.



O silêncio como comunicação e expressão terapêutica

Contrariamente à visão comum de que comunicar é falar, diversos autores argumentam que comunicar inclui também saber calar (Jaworski, 1997). O silêncio pode ser forma de expressão, sinal relacional ou espaço de negociação de significados.


A escuta profunda, conceito trabalhado em psicologia e comunicação interpessoal, requer silêncio interior e exterior. Rogers (1961) enfatiza que a escuta empática depende de suspender julgamentos e permitir que o outro se revele. O silêncio, aqui, não é um vazio, mas um ato relacional, ou seja, um convite à expressão do outro.

O silêncio não é ausência de expressão, mas momento criativo e reflexivo.

Para Rolando Benenzon (1981), o silêncio terapêutico acolhe, valida e facilita a expressão do mundo interno do paciente, sendo instrumento de integração relacional e emocional. Funciona como espaço de processamento emocional, permitindo que os conteúdos psíquicos emergentes se organizem.


No entanto, importa reconhecer que o silêncio pode ter significados ambivalentes: comunicar respeito ou desinteresse, serenidade ou tensão. Em contextos de desigualdade ou conflito, pode representar opressão ou impossibilidade de expressão (Bruneau, 2008). A arte do silêncio inclui, portanto, a competência de interpretar contextos e usar a quietude com intencionalidade ética.



A arte do silêncio como prática contemporânea

Recuperar o silêncio no quotidiano não implica rejeitar a comunicação ou a tecnologia, mas aprender a gerir ritmos. Han (2017) descreve a necessidade de criar “interrupções” no fluxo acelerado da vida, espaços em que a atenção se reencontra consigo. Estes espaços podem incluir práticas contemplativas, caminhadas silenciosas, momentos de leitura profunda, ou simplesmente a decisão consciente de desconectar.


Experiências de silêncio partilhado — como na música, na meditação ou em rituais comunitários — mostram que o silêncio também pode ser colectivo. A quietude conjunta cria ligação e sentido de pertença, desafiando a ideia de que comunicar é necessariamente falar.



Conclusão

A reflexão apresentada demonstra que o silêncio é mais do que um intervalo entre sons: é uma força estruturante da experiência humana. Constitui espaço de atenção, clarificação, escuta, presença e integração somática. Numa época marcada pela aceleração e pelo ruído, cultivar a arte do silêncio torna-se acto de resistência e de cuidado. O silêncio não elimina a complexidade da vida, mas permite enfrentá-la com mais profundidade.


Recuperar o silêncio é reencontrar sentido — na relação consigo, com o outro e com o mundo. A arte do silêncio surge como prática ética e existencial, convocando uma mudança na forma como comunicamos, pensamos e vivemos, incorporando dimensões cognitivas, emocionais, somáticas e expressivas.



Referências bibliográficas

Benenzon, R. (1981). Musicoterapia: Bases, técnicas e experiências. Editorial Paidós.

Boadella, D. (2006). USA Body Psychotherapy Journal, 5(1).

Bruneau, T. (2008). Understanding silence and reticence: Ways of participating in second language acquisition. Praeger.

Han, B.-C. (2017). A sociedade do cansaço (M. A. Werneck, Trad.). Relógio d’Água. (Obra original publicada em 2010)

Heidegger, M. (1959). Unterwegs zur Sprache. Neske.

Jaworski, A. (1997). Silence: Interdisciplinary perspectives. Mouton de Gruyter.

Kabat-Zinn, J. (2003). Mindfulness-based interventions in context: Past, present, and future. Clinical Psychology: Science and Practice, 10(2), 144–156.

Keller, A., Götz, T., & Becker, L. (2019). Silence as recovery: A review of psychological and physiological effects. Journal of Environmental Psychology, 65, 101338.

Klang, M. (2019). Stillness as presence: On silence in a noisy world. Routledge.

Lao Tzu. (2003). Tao Te Ching (D. C. Lau, Trad.). Penguin.

Rogers, C. R. (1961). On becoming a person. Houghton Mifflin.

Suzuki, S. (2010). Zen mind, beginner’s mind. Shambhala.

Wittgenstein, L. (2018). Tractatus logico-philosophicus (J. M. Coetzee, Trad.). Penguin. (Obra original publicada em 1922)

World Health Organization. (2020). Environmental noise guidelines. WHO Press.

Ziegler, P. (2018). Silence and creativity: The cognitive benefits of quiet. Creativity Research Journal, 30(4), 371–380.




Catarina Lourenço de Carvalho

Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.

Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.

Musicoterapia (Mestrado), integrando uma forte ligação artística — é violinista e contralto.

Formadora, Professora e Supervisora Clínica.


Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.


📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677



Comentários


Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
bottom of page