2025 em retrospectiva 2026 em perspectiva
- Catarina Carvalho
- 31 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Este texto surge como um exercício de reflexão clínica e pessoal sobre o percurso de um ano. Não se trata de um relatório de atividades, mas de uma leitura integrada dos processos vividos — na prática psicoterapêutica, na formação contínua e na experiência subjetiva. A sua partilha pretende contribuir para o pensamento clínico, para a normalização dos processos pessoais dos terapeutas e para uma compreensão mais integrada dos ciclos de mudança.
2025 foi um ano intenso, no qual as minhas diferentes dimensões se cruzaram, trazendo desafios, questionamentos internos e decisões que foram progressivamente orientando o caminho. Um ano de aprofundamento, de escolhas conscientes e de compromisso com a prática clínica, com a formação contínua e com as relações profissionais que sustentam – e desafiam – o pensamento psicoterapêutico.
Ao longo do ano, mantive-me em processos formativos diversos, maioritariamente ancorados no corpo, na voz e nas abordagens somáticas. A formação em Bodynamic Analysis (Foundation Training e Reorienting Birth), as práticas em Biossíntese, a formação em práticas espirituais xamânicas e em ThetaHealing, bem como os vários workshops corporais, não foram apenas espaços de aprendizagem técnica, mas experiências vividas no corpo, na escuta e na relação. Cada formação trouxe perguntas novas, deslocamentos internos e uma responsabilidade acrescida sobre o lugar que ocupo enquanto terapeuta.
A voz foi um dos eixos centrais de 2025. Facilitei diferentes edições do Vocal Lab, com a colega Orlanda Velez Isidro, criando espaços onde o som se tornou recurso de expressão, regulação e contacto. Em paralelo, aprofundei a minha própria formação em Vocal Psychotherapy, reforçando a integração entre música, corpo e psicoterapia – um cruzamento que continua a orientar o meu trabalho clínico.
2025 foi igualmente um ano marcado por experiências profundas a nível pessoal. Deparei-me com a maternidade dos filhos que deixaram de ter Cronos e passaram a ser sonhos de uma vida passada – lembrando-me de que, enquanto psicoterapeutas, também somos atravessados pelas nossas próprias experiências, e de que o corpo guarda emoções e memórias somáticas que pedem atenção, cuidado e acolhimento. Em simultâneo, encontrei formas de honrar e integrar essas vivências através de gestos simbólicos de cuidado e aceitação: retomei a escrita regular no blog, restaurei o meu violino, construí um tambor xamânico e decidi assumir os cabelos brancos. Movimentos simples, mas profundamente alinhados com a aceitação do tempo vivido, com a maturidade adquirida e com a coerência entre quem sou e o que apresento ao mundo.
Na prática terapêutica, 2025 foi também um ano de consolidação e expansão. Expandi a prática da Supervisão Clínica em Grupo e Individual e retomei a valência de Terapia de Casal, reconhecendo a importância do trabalho relacional, tanto no acompanhamento de pacientes como no suporte a outros profissionais. Em setembro, iniciei o Curso Psicocorporal para Mulheres – O Efeito da Mãe Ausente no Corpo da Mulher, um projeto amadurecido ao longo do tempo e que encontrou, finalmente, espaço para ganhar corpo.
O trabalho em equipa e a pertença institucional tiveram um peso significativo em 2025. Em fevereiro, mudei de consultório no Estoril e passei a integrar a equipa da HUMA, uma casa de terapias e workspace dedicada ao bem-estar físico e emocional, focada em abordagens holísticas e multidisciplinares. Em julho, integrei a Equipa de Coordenação da Escola Portuguesa de Biossíntese, participei ativamente em ciclos de práticas terapêuticas e tertúlias, e passei a integrar o Research Council da European Association for Biosynthesis (EABS), reforçando a importância do diálogo entre clínica, formação e investigação.
2025 marcou também movimentos institucionais relevantes. Concluí o meu mandato como Secretária do Conselho Científico da Federação Portuguesa de Psicoterapia (FEPPSI) e, em simultâneo, iniciei funções na Comissão Organizadora do seu Departamento de Desenvolvimento Profissional e Formação Contínua. Em conjunto com dois colegas psicoterapeutas, deu-se continuidade aos Diálogos Clínicos Interdisciplinares, um espaço de intervisão clínica que nasce do desejo de escuta plural, troca ética e pensamento partilhado.
O ano terminou com a integração na equipa multidisciplinar do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital Garcia da Orta, como musicoterapeuta — um novo contexto clínico que trouxe desafios, responsabilidade e sentido de serviço.
O que se abre em 2026?
Entro em 2026 com vontade de continuidade e aprofundamento. Com menos pressa e mais presença. Com o desejo de sustentar processos a médio e longo prazo, de cuidar da prática clínica, da formação e dos espaços de supervisão com uma atenção ainda maior ao ritmo, ao corpo e à relação.
Em janeiro de 2026, terá início o Curso Psicocorporal para Mulheres – O Efeito do Pai Ausente no Corpo da Mulher, dando continuidade ao trabalho iniciado sobre as marcas relacionais precoces e a forma como estas se inscrevem no corpo, na identidade e nas relações. Em abril, terá lugar a segunda edição do Curso Psicocorporal para Mulheres – O Efeito da Mãe Ausente no Corpo da Mulher, um percurso que revelou, na sua primeira edição um impacto terapêutico e transformador.
Também em janeiro, inicia-se um grupo de Supervisão Clínica em Biossíntese no âmbito da Escola Portuguesa de Biossíntese, que irei facilitar em conjunto com a Trainer Senior Cecília Valentim, criando um espaço regular de reflexão clínica e sustentação da prática psicoterapêutica. Fui ainda convidada pela colega Ana Caeiro, para o A Falar é que o Ser se Entende, onde iremos conversar sobre Vinculação: o que nos liga, o que nos segura.
O Vocal Lab regressará igualmente no primeiro trimestre de 2026, noutros pontos geográficos, retomando o trabalho com a voz como território de expressão, regulação e encontro — um eixo estruturante do meu percurso enquanto musicoterapeuta e psicoterapeuta corporal.
Paralelamente, encontro-me a desenvolver novos conteúdos formativos de curta duração (até 20 horas), pensados para profissionais e interessados que procuram espaços de aprendizagem focados, integrados e aplicáveis à prática clínica e corporal.
Entro, assim, em 2026 com sentido de continuidade, mas também com abertura ao novo. Com projetos que amadurecem, outros que nascem, e com a intenção clara de continuar a criar espaços onde o corpo possa ser escutado, a relação cuidada e o processo terapêutico vivido com profundidade e humanidade.
Questões para reflexão
Que experiências marcaram o teu ano?
Que sonhos pediram tempo, transformação ou despedida?
Que partes de ti estão prontas para ser escutadas no ciclo que se abre?
Catarina Lourenço de Carvalho
Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.
Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.
Musicoterapeuta no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital Garcia da Orta.
Formadora, Professora e Supervisora Clínica.
Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.
📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677























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