A Integração entre a Psicoterapia Corporal Somática e a Teoria Polivagal — Um Modelo Neurofisiológico da Regulação e da Cura
- Catarina Carvalho
- 5 de out. de 2025
- 6 min de leitura
Introdução
A psicoterapia corporal somática evoluiu de uma tradição reichiana centrada na energia e na expressão emocional para um campo contemporâneo sustentado por evidências neurofisiológicas (Schore, 2012; Siegel, 2020). Desde as formulações de Wilhelm Reich (1949), os modelos somáticos desenvolveram-se no sentido de reconhecer o corpo como mediador essencial da experiência psicológica e emocional.
A Teoria Polivagal, proposta por Stephen W. Porges, oferece um enquadramento científico que ilumina o funcionamento autonómico subjacente às práticas corporais. Como afirma Porges (2025):
A saúde psicológica depende da flexibilidade fisiológica do sistema nervoso para se reorganizar em direção à segurança e à ligação social.
O presente artigo propõe uma análise integrativa de diferentes abordagens e ferramentas somáticas — das neo-reichianas (Análise Bioenergética, Biossíntese e Psicologia Biodinâmica), às contemporâneas (Bodynamic Analysis, Experiência Somática e Psicoterapia Sensório-Motora) — à luz dos princípios polivagais, evidenciando como cada técnica promove a corregulação e a segurança corporal.
Fundamentação Teórica: Raízes Reichianas e Desenvolvimento Somático
A psicoterapia corporal tem origem nos trabalhos de Wilhelm Reich (1949), que introduziu o conceito de couraça muscular — um padrão crónico de tensão que reflete defesas psicológicas internalizadas. Reich concebia a saúde como o livre fluxo da energia vital (orgone) e a doença como o bloqueio desse fluxo.
Alexander Lowen (1958), seu discípulo, desenvolveu a Análise Bioenergética, enfatizando o corpo como via de expressão emocional e libertação energética. A prática bioenergética utiliza posturas, respiração profunda e movimento expressivo para restaurar o contacto com o corpo e as emoções reprimidas. Segundo Lowen (1975):
A pessoa perde a sua vitalidade quando perde o contacto com o corpo.
Gerda Boyesen (1980) fundou a Psicologia Biodinâmica, destacando a autorregulação vegetativa e o papel do sistema digestivo na “digestão emocional”. David Boadella (1987) criou a Biossíntese, unindo movimento, respiração e toque para restaurar o fluxo energético segmentar. Lisbeth Marcher (Marcher & Fich, 2010) desenvolveu a Bodynamic Analysis, integrando o desenvolvimento psicomotor e a função muscular como expressão do ego corporal. Peter Levine (1997) e Pat Ogden (Ogden & Fisher, 2015) trouxeram um foco contemporâneo para a resolução somática do trauma e a regulação bottom-up.
Apesar das diferenças conceptuais, estas abordagens partilham um princípio unificador:
O corpo é simultaneamente a origem, o espelho e o mediador da transformação psicológica.
A Teoria Polivagal como Quadro Integrador
A Teoria Polivagal (Porges, 2011, 2025) fornece um mapa neurofisiológico que explica o impacto das técnicas corporais na regulação autonómica. O sistema nervoso autónomo é composto por três vias hierarquizadas:
Vagal ventral — segurança, afeto e co-regulação social.
Simpático — mobilização, luta ou fuga.
Vagal dorsal — colapso, congelamento e imobilização.
O conceito de neurocepção (Porges, 2011) descreve a percepção inconsciente de segurança ou ameaça. Quando o corpo se sente seguro, o circuito ventral favorece o envolvimento social, a empatia e a aprendizagem. As intervenções somáticas procuram precisamente restabelecer esta segurança fisiológica.
Técnicas Somáticas e Correspondência Polivagal
Tabela 1 - Comparação das principais abordagens somáticas corporais
Abordagem | Fundadores | Foco terapêutico | Técnicas principais | Equivalência Polivagal |
Análise Bioenergética | Alexander Lowen | Libertação emocional e enraizamento corporal | Grounding, respiração profunda, posturas expressivas, vibração muscular | Alternância entre ativação simpática e regulação ventral; libertação da energia bloqueada |
Biossíntese | David Boadella | Integração corpo-mente; fluxo energético e expressivo | Grounding, respiração segmentar, contacto e movimento | Estabilização do circuito ventral e integração sensório-motora |
Psicologia Biodinâmica | Gerda Boyesen | Autorregulação vegetativa e digestão emocional | Massagem biodinâmica, escuta do ruído peristáltico | Regulação vagal dorsal-ventral; restauração da fluidez autonómica |
Bodynamic Analysis | Lisbeth Marcher | Desenvolvimento psicomotor e ego corporal | Teste muscular, reforço tónico, psicoeducação corporal | Fortalecimento da regulação ventral via consciência muscular |
Experiência Somática | Peter Levine | Resolução do trauma através da titulação somática | Pendulação, descarga, rastreamento corporal | Transição segura entre simpático e ventral |
Psicoterapia Sensório-Motora | Pat Ogden & Janina Fisher | Trauma e apego; integração top-down e bottom-up | Mindfulness corporal, movimentos incompletos, integração graduada | Ampliação da janela de tolerância e corregulação ventral |
Aplicações Clínicas e Implicações Relacionais
A integração polivagal redefine a compreensão da relação terapêutica: o terapeuta atua como um corregulador autonómico, cuja presença fisiologicamente segura permite que o cliente reorganize o seu próprio sistema nervoso.
Ogden e Fisher (2015) salientam que:
A presença do terapeuta é, em si mesma, uma intervenção corporal — cada palavra, pausa e respiração são veículos de regulação.
A prática somática é especialmente indicada em casos de trauma complexo, dissociação, ansiedade e perturbações do apego, nos quais o sistema permanece em neurocepção de ameaça (van der Kolk, 2014).
O treino do psicoterapeuta deve incluir:
Literacia somática (interocepção e propriocepção).
Observação fisiológica fina (respiração, tónus muscular, olhar, microexpressões).
Intervenções graduadas dentro da janela de tolerância.
Uso ético e informado do toque.
Autorregulação contínua e supervisão somática do próprio terapeuta.
Discussão e Síntese Integrativa
As abordagens neo-reichianas reforçam a ligação entre corpo, emoção e relação. A vibração bioenergética descrita por Lowen (1975) pode ser reinterpretada, à luz da Teoria Polivagal, como um processo de descarga simpática controlada seguida de reorganização ventral — uma oscilação saudável entre ativação e repouso.
Quando o corpo treme de prazer, está vivo; quando treme de medo, quer viver.
De forma semelhante, o grounding, comum às escolas reichianas, pode ser visto como uma prática de estabilização ventral. A digestão emocional da Psicologia Biodinâmica corresponde à transição do estado de imobilização dorsal para o restabelecimento do ritmo vegetativo saudável.
Assim, as técnicas corporais tornam-se instrumentos de modulação autonómica, nos quais cada respiração, movimento ou toque influencia o estado de segurança fisiológica e relacional.
Como sintetiza Porges (2025):
A cura acontece quando o corpo se sente seguro na presença do outro.
A psicoterapia somática constitui, portanto, o espaço onde o sistema nervoso encontra repouso e o ser humano reencontra a sua vitalidade corporificada.
Conclusão
As abordagens da psicoterapia corporal demonstram que o processo terapêutico efetivo requer mais do que a compreensão cognitiva dos fenómenos psicológicos — exige a mobilização da experiência somática como via de integração emocional e relacional. A Teoria Polivagal fornece uma estrutura neurofisiológica robusta que sustenta empiricamente o princípio central destas abordagens: a cura psicológica emerge da reorganização do sistema nervoso autónomo em contextos de segurança relacional.
Neste enquadramento, o corpo é conceptualizado não apenas como veículo de expressão do inconsciente, mas como sistema regulador e comunicacional primário, cuja leitura e intervenção permitem aceder a níveis profundos da autorregulação psicofisiológica. O corpo torna-se, assim, simultaneamente o primeiro mediador da experiência emocional e o último guardião dos processos de integração e cura.
A articulação entre as psicoterapias corporais e a Teoria Polivagal representa um avanço paradigmático na compreensão da relação entre corpo, emoção e mente. Esta convergência reforça a importância de intervenções baseadas na regulação autonómica, na corregulação relacional e na consciência interoceptiva como fundamentos para a saúde mental e a vitalidade humana. Em síntese, esta integração propõe um modelo clínico que reconhece o corpo como núcleo organizador da experiência psicológica e como ponto de partida essencial para a restauração da segurança, do prazer e da vitalidade existencial.
Referências Bibliográficas
Boadella, D. (1987). Lifestreams: An introduction to Biosynthesis. London: Routledge.
Boadella, D. (2015). Somatic foundations of psychotherapy: Integrating body and mind in the twenty-first century. Energy & Character, 46(1), 5–17.
Boyesen, G. (1980). Entre psyché et soma: La biodynamique. Paris: Éditions du Souffle d’Or.
Levine, P. A. (1997). Waking the Tiger: Healing Trauma. Berkeley: North Atlantic Books.
Lowen, A. (1958). The language of the body. New York: Collier Books.
Lowen, A. (1975). Bioenergetics. New York: Penguin.
Marcher, L., & Fich, S. (2010). Body encyclopedia: A guide to the psychological functions of the muscular system. Copenhagen: North Atlantic Books.
Ogden, P., & Fisher, J. (2015). Sensorimotor psychotherapy: Interventions for trauma and attachment. New York: Norton.
Porges, S. W. (2011). The polyvagal theory: Neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. New York: Norton.
Porges, S. W. (2025). Polyvagal theory: A journey from physiological observation to neural innervation and clinical insight. Frontiers in Behavioral Neuroscience, 19, 1659083. https://doi.org/10.3389/fnbeh.2025.1659083
Reich, W. (1949). Character analysis. New York: Orgone Institute Press.
Schore, A. N. (2012). The science of the art of psychotherapy. New York: Norton.
Siegel, D. J. (2020). The developing mind: How relationships and the brain interact to shape who we are (3rd ed.). New York: Guilford Press.
van der Kolk, B. A. (2014). The body keeps the score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. New York: Viking.

Catarina Lourenço de Carvalho
Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.
Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.
Musicoterapia (Mestrado), integrando uma forte ligação artística — é violinista e contralto.
Formadora, Professora e Supervisora Clínica.
Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.
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