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Desconfiança, confiança e psicoterapia: uma perspetiva clínica

  • Foto do escritor: Catarina Carvalho
    Catarina Carvalho
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

É comum pensar que a desconfiança é uma forma de autoproteção psicológica. Muitas pessoas sentem que desconfiar é prudente, evita desilusões e mantém algum controlo. Em contexto terapêutico, esta ideia aparece frequentemente associada a “defesa emocional”. No entanto, a investigação psicológica contemporânea mostra que a desconfiança constante, quando deixa de depender de situações concretas, tende a gerar mais sofrimento do que segurança (Mikulincer & Shaver, 2016; Thielmann et al., 2020).


Desconfiança versus vigilância adaptativa

Nem toda a desconfiança é negativa. Estar atento a riscos reais é saudável e adaptativo. O problema surge quando a desconfiança se torna um filtro permanente para interpretar o outro e o mundo, transformando situações neutras em ameaçadoras. Este padrão está associado a ansiedade, tensão constante, dificuldade em relaxar nas relações e interpretação negativa de sinais sociais ambíguos.


Na psicoterapia, a desconfiança manifesta-se como dificuldade em confiar no terapeuta, receio de exposição emocional ou necessidade de controlar o processo. Embora compreensíveis à luz da história de vida, estas atitudes dificultam a construção de uma relação segura, que é essencial para o processo terapêutico.


Confiança e ingenuidade

Confiar não significa ignorar riscos, mas aceitar a vulnerabilidade que existe em toda a relação humana. A confiança é um processo gradual, baseado em experiências de consistência, previsibilidade e reparação após falhas (Simpson, 2017; Mayer et al., 2018). Pessoas com maior capacidade de confiar regulam melhor as emoções, lidam mais flexivelmente com a incerteza e aproveitam melhor a terapia.


Estruturas de personalidade e padrões de confiança

A forma como cada pessoa confia ou desconfia está profundamente ligada à estrutura de personalidade:

  • Estruturas neuróticas: a desconfiança é flexível e situacional. A pessoa reconhece a separação entre si e o outro e consegue refletir sobre os seus medos. Em psicoterapia, a confiança cresce à medida que os conflitos internos são elaborados e o vínculo terapêutico se mostra consistente.

  • Organização borderline: a confiança é instável e intensamente emocional. A pessoa alterna entre idealizar e desvalorizar o outro, teme abandono e testa constantemente a relação. A desconfiança aqui não é racional, mas emocional. O trabalho terapêutico foca-se em consistência, limites claros e reparação de ruturas.

  • Estruturas psicóticas: a desconfiança reflete fragilidade na percepção da realidade. Sinais neutros podem ser vividos como ameaçadores, podendo surgir ideias persecutórias ou experiências dissociativas. A confiança só se constrói gradualmente, começando por sentir-se seguro no presente e na relação terapêutica.


Estas estruturas não são categorias fixas. Uma pessoa pode apresentar características de diferentes níveis sob stress ou ao longo da vida. Quanto mais integrada a personalidade, mais a desconfiança é contextual e passível de reflexão; quanto mais fragilizada, mais ela se torna global e intensa.


Desconfiança e trauma

A desconfiança crónica é frequentemente uma consequência de trauma, especialmente quando este ocorre em contextos interpessoais significativos. O trauma ensina o cérebro e o corpo a esperar perigo; como resultado, a desconfiança deixa de ser pontual e torna-se um padrão persistente de alerta.


Quando o Trauma advém de um evento isolado, a desconfiança é pontual e adaptativa. Quando estamos perante Trauma complexo, ou seja, experiências repetidas ou prolongadas de abuso, negligência ou instabilidade relacional, a desconfiança torna-se rígida e abrangente, afetando profundamente a capacidade de confiar no outro e em si próprio (Courtois & Ford, 2016; Li et al., 2019).


No trauma complexo, padrões semelhantes aos da organização borderline surgem: intensas emoções, medo de abandono, alternância entre idealização e desvalorização, e dificuldade em confiar, mesmo em situações seguras. Em casos mais graves, pode haver fenómenos dissociativos ou psicóticos transitórios.


Trauma e estilos de vinculação

A teoria do apego ajuda a compreender as dinâmicas de confiança e desconfiança: figuras de referência imprevisíveis ou ameaçadoras na infância geram apego ansioso, evitativo ou desorganizado, cada um ligado a diferentes formas de desconfiança e dificuldade em confiar (Mikulincer & Shaver, 2016).

  • Apego ansioso: a pessoa quer proximidade, mas desconfia da disponibilidade do outro. Existe medo intenso de abandono.

  • Apego evitativo: a pessoa evita confiar ou se expor emocionalmente, mantendo a desconfiança como barreira protetiva.

  • Apego desorganizado: a pessoa simultaneamente deseja proximidade e teme o outro, criando padrões caóticos de confiança e desconfiança, muitas vezes observados em trauma complexo e em borderline (Li et al., 2019; Mikulincer & Shaver, 2016).


Implicações para a psicoterapia

Os padrões descritos anteriormente mostram que a desconfiança em contextos traumáticos não é um traço de caráter negativo por si só, mas sim uma adaptação que protege a pessoa de revitimização. O desafio terapêutico consiste em ajudar a diferenciar perigo real de perigo percebido, permitindo que a confiança gradualmente se torne possível.


Em Psicoterapia, a confiança deve ser reconstruída lentamente. Algumas estratégias incluem:

  1. Previsibilidade e consistência: cumprir horários, compromissos e limites.

  2. Validação da experiência: reconhecer e normalizar o medo e a desconfiança do cliente.

  3. Mentalização: ajudar a perceber intenções e estados mentais próprios e dos outros de forma segura.

  4. Exposição gradual à intimidade emocional: permitir experiências positivas de confiança dentro do setting terapêutico.


O objetivo não é eliminar a desconfiança, mas transformá-la de mecanismo rígido de proteção em discernimento flexível, permitindo perceber quando confiar é seguro e quando a vigilância é realmente necessária.


Em síntese,

A desconfiança constante não é sinal de maturidade/imaturidade psicológica; é muitas vezes uma adaptação ao passado, especialmente a experiências traumáticas. A confiança saudável, construída lentamente, é essencial para relações seguras, regulação emocional e crescimento psicológico. Em psicoterapia, o trabalho consiste em oferecer coerência, previsibilidade e reparação para que a desconfiança adaptativa se transforme em confiança calibrada, promovendo uma vida emocional mais estável e relacionalmente mais satisfatória.


Referências principais

  • Courtois, C. A., & Ford, J. D. (2016). Treatment of complex trauma: A sequenced, relationship-based approach. Guilford Press.

  • Gigerenzer, G. (2015). Risk savvy: How to make good decisions. Penguin.

  • Kahneman, D., Sibony, O., & Sunstein, C. (2021). Noise: A flaw in human judgment. Little, Brown.

  • Li, M., et al. (2019). Attachment and trauma-related disorders: Mechanisms and treatment implications. Clinical Psychology Review, 68, 45–60.

  • Mikulincer, M., & Shaver, P. R. (2016). Attachment in adulthood (2nd ed.). Guilford Press.

  • Simpson, J. A. (2017). Psychological foundations of trust. Current Directions in Psychological Science, 26(5), 389–394.

  • Thielmann, I., Spadaro, G., & Balliet, D. (2020). Personality and prosocial behavior. Psychological Bulletin, 146(1), 30–90.

Catarina Lourenço de Carvalho

Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.

Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.

Musicoterapeuta no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital Garcia da Orta.

Co-coordenadora da Escola Portuguesa de Biossíntese.

Supervisora Clínica.


Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.


📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677


 
 
 

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