O Papel do Ego na Psicoterapia: Corpo, Identidade e Integração
- Catarina Carvalho
- 30 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
"O Ego é a voz do corpo que se torna palavra, a ponte invisível entre a sensação de ser e a narrativa que escolhemos viver. É onde a integração do Eu acontece como uma dança entre vulnerabilidade e força."
Vivemos um tempo em que o Ego é frequentemente retratado como um obstáculo ao crescimento pessoal ou à espiritualidade. Tornou-se comum escutar que devemos "transcendê-lo", "aniquilá-lo" ou "superá-lo", como se fosse o vilão da nossa vida interior. No entanto, essa visão simplificadora contrasta com o entendimento clínico e teórico contemporâneo, que reconhece o Ego como uma estrutura essencial à saúde psíquica, à autorregulação emocional e à nossa presença encarnada no mundo.
Este artigo propõe uma reflexão integrada sobre o papel do Ego, partindo da psicanálise clássica, passando pelas psicoterapias corporais e culminando no modelo Bodynamic de Lisbeth Marcher. Longe de ser um inimigo a ser combatido, o Ego é aqui compreendido como uma instância a ser cuidada, fortalecida e integrada.
O Ego como Estrutura da Consciência e da Identidade
Na psicanálise, Freud (1923) descreveu o Ego como a instância que media entre os impulsos inconscientes (Id), as exigências morais (Superego) e a realidade externa. Para Jung (1966), o Ego é o centro da consciência, mas não a totalidade da psique — ele é uma parte importante do Self, a instância que nos permite dizer "eu", tomar decisões e sustentar a continuidade da nossa identidade.
A psicanalista Françoise Dolto acrescenta a dimensão relacional e somática ao desenvolvimento do Ego. Ela enfatiza que o sujeito emerge na relação com o outro, e que o corpo é um lugar de linguagem desde os primeiros dias de vida.
"O Ego começa a formar-se não apenas pela via simbólica, mas também pela escuta do corpo e pela forma como este é reconhecido e representado no discurso do adulto."
O Ego Também É Corpo: Reich, Lowen e Boadella
Na psicoterapia corporal, o Ego é entendido como uma estrutura que se expressa também somaticamente. Wilhelm Reich foi pioneiro ao demonstrar como os conflitos psíquicos se inscrevem no corpo sob a forma de couraças musculares — tensões crónicas que funcionam como defesas inconscientes.
Alexander Lowen, criador da Bioenergética, reforça que um Ego saudável está enraizado na vitalidade corporal. Ele deve permitir a expressão autêntica por meio de movimentos, respiração plena e contacto com o solo. Um Ego desconectado do corpo tende à rigidez, à dissociação e à perda de espontaneidade.
David Boadella, com a Psicoterapia Biossintética, desenvolve a ideia de um Ego autorregulador que articula sensações, emoções e significados. Para ele, a cura não ocorre apenas na mente, mas na totalidade corpo-consciência.
Lisbeth Marcher e os Níveis do Ego: A Abordagem Bodynamic
A psicoterapeuta somática Lisbeth Marcher, fundadora da Bodynamic Analysis, propôs uma abordagem diferenciada e integradora, baseada no desenvolvimento psicomotor e nas competências relacionais do corpo.
"O Ego não é uma estrutura única, mas um sistema multifacetado que se organiza em cinco níveis: ego corporal, ego individual, ego de papéis, ego observador e ego integrador."
Ego corporal – Surge nos primeiros meses de vida e está relacionado com a sensação física de presença, os limites corporais e a segurança ontológica.
Ego individual – Forma-se na infância e permite a diferenciação do outro, a afirmação do "eu sou" e o desenvolvimento da autonomia.
Ego de papéis – Desenvolve-se na adolescência e vida adulta, permitindo ao sujeito ocupar diversos papéis sociais (profissional, parental, conjugal) sem perder coerência interna.
Ego observador – Corresponde à capacidade de auto-observação e metarreflexão sem julgamento. É fundamental para o processo terapêutico e a autorregulação emocional.
Ego integrador – Articula todas as dimensões anteriores, sustentando a coerência interna, a continuidade narrativa e a integração entre corpo e psique.
Este modelo oferece uma cartografia rica e clínica do desenvolvimento do Self, permitindo intervenções precisas que respeitam a complexidade e o ritmo do paciente.
O Ego na Prática Terapêutica: Presença, Não Supressão
Na psicoterapia, é o Ego que nos procura, que sofre, que formula as perguntas e que, por vezes, resiste à mudança — e isso é legítimo. O trabalho clínico não visa dissolver o Ego, mas restaurar sua função integradora, ampliá-lo e fortalecê-lo. Um Ego frágil, rígido ou fragmentado é frequentemente o resultado de traumas precoces, de experiências relacionais ausentes ou de repressões emocionais.
Nos casos em que o Ego está comprometido, o ponto de partida terapêutico não deve ser a racionalização, mas a reabilitação dos níveis mais básicos, como o Ego corporal.
"Só a partir de uma base segura e corporificada é possível aceder às dimensões mais complexas da experiência."
Cuidar do Ego é um Ato de Amor
Cuidar do nosso Ego é, antes de tudo, um ato de amor próprio. Significa olhar para nós com compaixão, reconhecer os nossos limites e contradições sem cair em idealizações ou autojulgamentos. Um Ego amadurecido é aquele que pode observar-se, regular-se e integrar-se sem se perder em máscaras ou armaduras.
É também através de um Ego saudável que podemos olhar o outro com curiosidade, presença e empatia — sem projetar, sem controlar, sem fugir.
Conclusão: Reabilitar o Ego para Reintegrar o Ser
O Ego não é um obstáculo à evolução; é a estrutura que sustenta a nossa capacidade de habitar o mundo com clareza, autenticidade e vínculo. Integrar corpo, emoção e pensamento não significa anular o Ego, mas permitir que ele ocupe seu lugar legítimo: como mediador entre os mundos interno e externo, entre o impulso e o cuidado, entre o passado vivido e o presente possível.
Na clínica contemporânea — especialmente nas abordagens somáticas — o cuidado com o Ego revela-se não apenas necessário, mas transformador.
"É através de um Ego presente e vivo que podemos viver com verdade, liberdade e relação."
Referências
Boadella, D. (1994). Biossíntese: Psicoterapia e Integração Somática. São Paulo: Cultrix.
Dolto, F. (1984). A Imagem Inconsciente do Corpo. São Paulo: Martins Fontes.
Freud, S. (1923). O Ego e o Id. Rio de Janeiro: Imago.
Jung, C. G. (1966). A Estrutura da Psique. Petrópolis: Vozes.
Lowen, A. (1975). Bioenergética. São Paulo: Summus.
Marcher, L., & Fich, S. (2010). The Body Encyclopaedia. Copenhagen: Bodynamic International.
Reich, W. (1973). Análise do Caráter. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
Sobre mim

Catarina Lourenço de Carvalho
Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.
Especialização em Psicossomática, Epigenética, Trauma, Neurociência e Terapia de Casal.
Musicoterapeuta, Formadora e Supervisora Clínica.
Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.
📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677





















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