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Suicídio: Entre a Dor, a Escolha e a Esperança

  • Foto do escritor: Catarina Carvalho
    Catarina Carvalho
  • 14 de set. de 2025
  • 4 min de leitura

Se sentir necessidade de ajuda, ou conhecer alguém que possa estar em risco, contacte:


🏥 Serviço de Saúde Mental do hospital da sua região (adultos ou crianças e adolescentes)

☎️ Linha Nacional de Prevenção do Suicídio – 1411, em articulação com a Linha SNS 24

🚨 Em caso de emergência ou risco de vida, ligue imediatamente 112 (INEM)

Todos os dias, em Portugal, três pessoas morrem por suicídio (OPP, 2025). No mundo, a cada 40 segundos alguém tira a própria vida (OMS, 2019). Para além das estatísticas, há vidas interrompidas, famílias devastadas e comunidades em luto.


Falar sobre suicídio implica lidar com a complexidade da dor humana. Não se trata apenas de números ou diagnósticos: trata-se de pessoas que, muitas vezes, não querem verdadeiramente morrer, mas sim deixar de viver com a dor que carregam.


Fatores de Risco e de Proteção

A literatura científica refere que o suicídio é um fenómeno multifatorial e indica como principais fatores de risco (Parente, 2023):

  • tentativas anteriores (o mais forte preditor),

  • perturbações psicológicas não tratadas,

  • abuso de álcool ou drogas,

  • problemas económicos e desemprego,

  • isolamento social e solidão (especialmente entre idosos),

  • acesso facilitado a meios letais.


No contexto português, as taxas são mais altas nos homens, nos idosos e nas regiões do Sul e Centro. A região Norte apresenta valores mais baixos, associados a maior coesão comunitária e religiosidade. Em relação à idade, as maiores taxas de suicídio estão entre os idosos com mais de 65 anos (DGS, 2012; Parente, 2023), havendo relatos de um aumento preocupante de suicídio nas faixas etárias mais jovens dos 10 aos 34 anos.


Fatores de proteção como redes de apoio, boas estratégias de coping, acesso a cuidados de saúde, envolvimento comunitário e crenças culturais/religiosas oferecem alternativas e esperança. Estes elementos não eliminam a dor, mas diminuem a probabilidade de recorrer ao suicídio como única saída.


O Papel da Psicoterapia

A psicoterapia tem um papel central na prevenção. Abordagens baseadas na evidência, como a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Terapia Dialética-Comportamental, mostraram eficácia na redução de ideação e tentativas suicidárias.


Em complemento, abordagens integrativas e humanistas, como a Biossíntese (Boadella, 1997), oferecem uma compreensão holística da pessoa — corpo, mente e espírito. A prática em Biossíntese procura restaurar o movimento vital bloqueado pela depressão ou trauma, reintegrar respiração e expressão emocional, fortalecer vínculos humanos e abrir espaço para novos sentidos de vida (BI, 2025).


A prevenção do suicídio não é apenas “evitar a morte”, mas sim abrir possibilidades de vida com dignidade e esperança.


O Suicídio como “Escolha”?

Do ponto de vista ético, a autonomia é um valor central. No entanto, a prática clínica mostra que a ideação suicida surge, na maioria dos casos, em contextos de desespero, doença psicológica ou vulnerabilidade extrema.


Nesses momentos, a liberdade de escolha está profundamente limitada. Muitas vezes, observa-se ambivalência: não tanto o desejo de morrer, mas o desejo de cessar a dor.


Por isso, em saúde psicológica, o foco não está em validar a morte como decisão final, mas em avaliar a capacidade de decisão, escutar a dor, reduzir o sofrimento e ampliar alternativas de vida (DGS, 2012; OPP, 2025).


Os Sobreviventes

O luto por suicídio é especialmente duro, misturando dor, raiva, vergonha e culpa. Cada suicídio afeta entre seis a dez pessoas de forma direta (OPP, 2025).


O acompanhamento especializado, os grupos de apoio e a solidariedade da comunidade são fundamentais para legitimar esta dor e ajudar a reconstruir sentido. No Plano Nacional de Prevenção do Suicídio (DGS, 2013) sublinha-se a dimensão da pósvenção:

"Nenhuma pessoa deve ser deixada sozinha neste processo"

Implicações para a Prática

Para psicólogos e psicoterapeutas, prevenir o suicídio implica:

  • Estar atentos aos sinais de risco e fatores de alarme.

  • Perguntar de forma clara e direta sobre ideação suicida.

  • Escutar sem julgamento, validando a dor.

  • Avaliar de forma holística (estado mental, impulsividade, suporte social, acesso a meios letais).

  • Oferecer alternativas terapêuticas que reforcem os recursos da pessoa.

  • Promover práticas que devolvam agência sobre a vida, não sobre a morte.


A integração de abordagens humanistas, como a Biossíntese, pode ser uma via valiosa para devolver movimento, esperança e sentido.


Considerações Finais

A prevenção do suicídio é um desafio coletivo que exige políticas públicas eficazes, ciência rigorosa e, sobretudo, humanidade. Não basta olhar para números ou indicadores: é preciso compreender a dor singular de cada pessoa e responder-lhe com empatia, competência clínica e redes de apoio consistentes.


Em Portugal, têm sido dados passos importantes com o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio, as orientações da Ordem dos Psicólogos Portugueses e os contributos da investigação académica e clínica. Mas a realidade mostra que ainda existe muito a fazer na redução do estigma, no acesso a cuidados de saúde mental e na mobilização da comunidade.


É aqui que as abordagens integrativas e humanistas, como a Biossíntese, oferecem uma perspetiva complementar: cuidar da pessoa como um todo — corpo, mente e espírito — e ajudá-la a recuperar o movimento vital, o vínculo humano e o sentido existencial. Assim, a meta da prevenção não se traduz num reduzir estatísticas, mas ampliar vidas: vidas com dignidade, capazes de acolher a dor sem sucumbir a ela, e abertas à possibilidade da esperança.


Referências Bibliográficas

  • Biosynthesis International (2025). Publicação no Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. https://www.facebook.com/biosynthesisinternational

  • Boadella, D. (1997). Biosynthesis: Somatic therapy and the foundations of psychotherapy. Routledge.

  • Direção-Geral da Saúde (2012). Prevenção do Suicídio – Manual para Profissionais de Saúde. Lisboa: DGS.

  • Direção-Geral da Saúde (2013). Plano Nacional de Prevenção do Suicído 2013/2017. Lisboa: DGS - Programa Nacional para a Saúde Mental.

  • Ordem dos Psicólogos Portugueses (2025). Vamos falar sobre suicídio? Documento informativo para o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Lisboa: OPP.

  • Organização Mundial da Saúde (2019). Suicide in the world: Global health estimates. WHO: Geneva.

  • Parente, J. (2023). Suicídio em Portugal. Blog Psiworks. Disponível em: https://psiworks.pt/blog/

Catarina Lourenço de Carvalho

Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.

Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.

Musicoterapia (Mestrado), integrando uma forte ligação artística — é violinista e contralto.

Formadora, Professora e Supervisora Clínica.


Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.


📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677

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