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Raiva e Luto — Processos Vitais de Separação, Diferenciação e Integração do Self

  • Foto do escritor: Catarina Carvalho
    Catarina Carvalho
  • 16 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 17 de nov. de 2025

Na prática clínica contemporânea, muitos pacientes procuram ajuda pois não conseguem tolerar, modular ou integrar sentimentos de raiva e processos de luto. Esses afetos, frequentemente vividos como disfuncionais, desorganizadores ou mesmo perigosos, surgem como sinais de fragilidade emocional. Contudo, diversas tradições clínicas — das mais psicodinâmicas às somáticas — convergem na compreensão de que raiva e luto não são patologias em si, mas processos vitais de reorganização interna, essenciais ao desenvolvimento do self.


Na prática clínica, torna-se claro que a experiência afetiva e a experiência corporal não são paralelas: são camadas inseparáveis da maturação humana. A raiva estrutura a fronteira e a presença; o luto reorganiza o vínculo e a interioridade. O self amadurece quando ambos os movimentos podem ser vividos no corpo e no vínculo.


Raiva: da agressividade estruturante à presença somática

A literatura psicodinâmica descreve a raiva precoce como expressão vital de frustração (Winnicott, 1965), promotora da diferenciação entre self e ambiente. Este movimento de separação primária encontra um paralelo notável nas abordagens corporais: na Bioenergética, Lowen conceptualiza a agressividade como força muscular e pulsional que sustenta a postura, o enraizamento e a auto-afirmação. Assim, a função estrutural da raiva proposta por Winnicott — permitir ao bebé reconhecer que o mundo não é uma extensão de si — corresponde somaticamente ao organizar do tónus, da respiração e da força dirigida que Lowen descreve como movimentos fundamentais de individuação.


A projeção agressiva, descrita por Klein (1940) como essencial à passagem da posição esquizo-paranóide para a depressiva, encontra também eco na Bodynamic Analysis: Marcher demonstra que capacidades musculares associadas ao confronto, à contenção e ao estabelecimento de limites (boundary setting) evoluem em paralelo com o desenvolvimento emocional da agressividade e da ambivalência. Nas duas abordagens, a agressividade saudável emerge quando o ambiente suporta a diferenciação sem retraumatizar.


No campo do apego, Bowlby (1969) entende a raiva como protesto relacional perante a separação — uma tentativa organizada de restabelecer o vínculo. Levine, no Somatic Experiencing, descreve esse protesto como impulso de mobilização biológica incompleta, muitas vezes interrompida por estados de congelamento. Assim, a raiva não é apenas protesto psicológico: é um movimento corporal de mobilização que procura conclusão.


A integração destas perspetivas permite compreender a raiva não como ameaça, mas como veículo de presença, ajudando o sujeito a habitar o próprio corpo e a reivindicar espaço psicológico e relacional.


O luto como reorganização afetiva e somática

O luto, tradicionalmente conceptualizado por Freud como trabalho psíquico de desvinculação, implica para o corpo um processo comparável de cedência, colapso temporário e reintegração tónica. Tal como Bowlby (1980) descreveu nas fases de protesto, desespero e reorganização, também Boadella identifica na Biossíntese ritmos somáticos de entrega, abrandamento e recuperação, correspondentes à “linha de sentimento”. O luto surge como movimento descensional do sistema corpo-mente, que permite contactar vulnerabilidade, perda e sensibilidade reorganizadora.


Marcher, na Bodynamic, enfatiza que o luto convoca funções musculares associadas ao reach, grasp, let go — tocar, agarrar e deixar ir. Esta sequência, fundamental para o desenvolvimento relacional, é um equivalente somático das tarefas psicológicas de Worden (2009): aceitar a realidade da perda, processar a dor, ajustar-se a um self transformado e reinvestir na vida. Quando estas funções corporais são interrompidas, o luto torna-se cronicamente incompleto.


Na perspetiva da psicologia do self, Kohut (1977) descreve lutos não elaborados como feridas narcísicas ligadas à perda de objetos idealizados. Este entendimento complementa abordagens somáticas como a de Levine, nas quais o entorpecimento, o colapso ou a imobilidade surgem como estados de defesa que preservam o sistema nervoso de uma sobrecarga insuportável. O trabalho clínico consiste não em forçar o luto, mas em permitir micro-oscilação entre ativação e regressão, favorecendo reorganização.


Assim, o luto pode ser visto simultaneamente como transformação emocional e reorganização corporal, processo no qual o sujeito reestrutura identidades internas e redistribui energia vital após a perda.


A interdependência entre raiva e luto: uma dinâmica corpo-psíquica

A raiva e o luto não são processos paralelos — são fases interdependentes da reorganização do self. O protesto agressivo sinaliza a interrupção do vínculo; o luto permite integrar essa interrupção. Do ponto de vista somático, a raiva mobiliza energia e estabelece limites, enquanto o luto desmobiliza, flexibiliza e reorganiza o campo interno.


Na clínica, esta interdependência evidencia-se claramente:

  • pacientes que não acessam a raiva frequentemente não conseguem completar o luto;

  • pacientes que permanecem num luto congelado mostram frequentemente agressividade desvitalizada;

  • expressões impulsivas de raiva, não simbolizadas, revelam lutos não elaborados por falhas de espelhamento;

  • no corpo, tensões crónicas (bioenergéticas) e hipercontrolo muscular (Bodynamic) sustentam estados psíquicos de negação da perda;

  • técnicas expressivas facilitam a transição entre protesto e rendição, permitindo que corpo e emoção se reorganizem em conjunto.


Assim, compreender raiva e luto como movimentos complementares — um para fora, outro para dentro — amplia significativamente a capacidade clínica de trabalhar separação, diferenciação e autonomia emocional.


Implicações clínicas para psicoterapeutas

A integração destas perspetivas traduz-se em orientações clínicas concretas:

1. Validação afetiva e somática

A normalização da agressividade e do sofrimento, reconhecendo-os como movimentos de vida, diminui a vergonha e facilita simbolização e regulação.


2. Atenção ao corpo como campo de organização psíquica

Padrões respiratórios, tónus muscular, impulsos de mobilização e estados de colapso fornecem informação essencial sobre onde o processo de separação está interrompido.


3. Leitura da transferência como espaço de reorganização

Protesto, raiva e luto expressos na relação terapêutica não são obstáculos, mas oportunidades para reinscrever experiências de separação com suporte relacional.


4. Trabalho gradual de fronteiras e entrega

A clínica corporal-somática ensina que a raiva fortalece os limites do self, enquanto o luto flexibiliza a interioridade. O trabalho terapêutico alterna, portanto, entre firmeza e cedência.


5. Uso terapêutico do movimento e da expressão

Técnicas expressivas e artísticas permitem que conteúdos não simbolizados encontrem forma, apoiando a reorganização sensório-motora e emocional.


Conclusão

Raiva e luto são processos profundamente interligados na maturação humana. Quando compreendidos a partir de modelos psicodinâmicos e somáticos integrados, revelam-se como forças organizadoras que sustentam separação, autonomia, diferenciação e integração do self. Para psicólogos e psicoterapeutas, esta visão oferece um mapa clínico capaz de orientar intervenções que respeitam o corpo, o vínculo e a complexidade psíquica. Permitir que a raiva se mobilize e que o luto se processe é, em última instância, permitir que o sujeito se torne mais inteiro, mais presente e mais livre.


Referências bibliográficas

Boadella, D. (1993). Biosynthesis: Somatic psychotherapy and the emergence of the three body centres. Free Psychotherapy Press.

Bowlby, J. (1969). Attachment and loss: Vol. 1. Attachment. Basic Books.

Bowlby, J. (1980). Attachment and loss: Vol. 3. Loss, sadness and depression. Basic Books.

Freud, S. (1917). Mourning and Melancholia. The Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, Volume XIV (1914-1916): On the History of the Psycho-Analytic Movement, Papers on Metapsychology and Other Works, 243-258

Klein, M. (1940). Mourning and its relation to manic-depressive states. International Journal of Psycho-Analysis, 21, 125–153.

Kohut, H. (1977). The restoration of the self. University of Chicago Press.

Levine, P. A. (1997). Waking the tiger: Healing trauma. North Atlantic Books.

Lowen, A. (1975). Bioenergetics. Coward, McCann & Geoghegan.

Marcher, L., & Fich, S. (2010). Body encyclopedia: A guide to the psychological functions of the muscular system. North Atlantic Books.

Winnicott, D. W. (1965). The maturational processes and the facilitating environment. International Universities Press.

Worden, J. W. (2009). Grief counseling and grief therapy (4th ed.). Springer.



Catarina Lourenço de Carvalho

Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.

Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.

Musicoterapia (Mestrado), integrando uma forte ligação artística — é violinista e contralto.

Formadora, Professora e Supervisora Clínica.


Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.


📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677


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