Luto, Corpo e Sentido — Uma Abordagem Integrativa com a Psicoterapia Somática da Biossíntese
- Catarina Carvalho
- 13 de jul. de 2025
- 6 min de leitura
“O luto é o preço que pagamos pelo amor, mas também o caminho por onde ele se transforma.”
— Margaret Stroebe, 2023
Perder alguém ou algo significativo abala a base da nossa existência. O luto, embora natural, é muitas vezes vivido em silêncio, com sentimentos complexos que se estendem para além da tristeza. A intervenção psicoterapêutica torna-se um espaço essencial para acolher e dar sentido à dor — especialmente quando esta se transforma em sofrimento prolongado ou patológico.
Este artigo revê a evolução das principais teorias e modelos de luto, da tradição clássica até as formulações contemporâneas (2020–2025), com foco na psicoterapia somática integrativa da Biossíntese. Serão apresentados exemplos clínicos e uma reflexão sobre a evidência transversal desta abordagem na transformação do sofrimento.
A Amplitude das Perdas
O luto não se restringe à morte. Envolve qualquer forma de separação ou transformação de vínculo: doenças crónicas, demência, perda de emprego, fim de relacionamentos, mudanças geográficas ou de fase de vida. Mesmo mudanças desejadas — como o nascimento de um filho — podem gerar sentimentos de luto pela liberdade ou identidade anterior.
A perda implica uma reorganização profunda que atravessa corpo, mente e identidade. Como sublinha Neimeyer (2012), o processo de luto é também um processo de reconstrução de significados — internos, relacionais e existenciais.
Modelos de Luto: Da Linearidade à Complexidade
Kübler-Ross (1969) — Os Cinco Estágios
Propôs um modelo descritivo com cinco estágios emocionais: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Embora útil como mapa inicial, este modelo tem sido criticado por sugerir uma linearidade que não corresponde à realidade vivida.
Worden (2002) — As Quatro Tarefas do Luto
Introduziu um modelo ativo e flexível baseado em quatro tarefas:
1. Aceitar a realidade da perda
2. Elaborar a dor
3. Adaptar-se ao mundo sem o outro
4. Reinvestir na vida mantendo o vínculo simbólico
Neimeyer (2012) — Reconstrução de Sentido
Enfatiza o papel do significado pessoal e narrativas biográficas. O sofrimento ocorre não só pela ausência da pessoa, mas pela ruptura de um mundo que fazia sentido.
DSM-5-TR (2022) — Luto Prolongado ou Complexo
Reconhecido como perturbação mental, o luto complexo caracteriza-se por sintomas intensos e disfuncionais que persistem por mais de 12 meses (6 em crianças), como:
Ruminação constante
Incapacidade de aceitar a perda
Evitamento extremo
Isolamento social
Colapso funcional
Shear (2022) e Boelen et al. (2023) desenvolveram intervenções focadas na identificação precoce e na diferenciação entre luto normal e patológico.
A Biossíntese no Acompanhamento do Luto
A Biossíntese, desenvolvida por David Boadella, é uma abordagem psicoterapêutica somática que integra corpo, emoção e significado. Parte do princípio de que o trauma e a perda afetam não apenas a mente, mas todo o organismo — exigindo um processo de cura que inclua o sistema nervoso autónomo, as tensões musculares e a energia relacional.
A intervenção apoia-se em três métodos terapêuticos primários:
Grounding: conexão com a terra e com o corpo; base e estrutura.
Centering: contacto interno, estabilidade emocional e identidade.
Facing: orientação para o mundo, expressão autêntica e vínculo externo.
Quando diferentes partes do self são afetadas pelo luto — provocando colapsos, retrações ou bloqueios — é necessário o psicoterapeuta integrar na prática clínica intervenções específicas que respeitem o ritmo e a sabedoria do corpo do paciente.
Aplicação Clínica: Três Casos com Integração Somática
🌱 Grounding — Luto e perda de suporte emocional
Maria, 68 anos, perdeu o marido com quem viveu durante 40 anos. Desde então, sente-se "sem chão", com desequilíbrio corporal e insegurança. Relata sensação de flutuar e ausência de orientação interna.
Com foco no Grounding, utilizam-se exercícios de contacto com os pés, toque nas articulações inferiores e rituais corporais simples (como caminhar descalça em areia ou terra). A reorganização da rotina ajuda também a restabelecer um sentido de base. O objetivo é Maria recuperar a capacidade de sentir-se segura no seu corpo e presente no quotidiano.
🌀 Centering — Luto e colapso identitário
João, 42 anos, perdeu o filho adolescente num acidente. Refere sintomas de vazio, perda de identidade e ataques de pânico. Diz: "não sei mais quem sou sem ele".
Focando no Centering, com respiração axial, toque suave no peito e prática de nomeação emocional. A reintegração do self acontece através do reconhecimento das emoções no centro do corpo. O objetivo é João reconstruir uma narrativa pessoal que inclua a dor e também novas possibilidades de significado.
🔭 Facing — Luto e bloqueio no contacto com o mundo
Ana, 35 anos, perdeu o irmão num acidente de moto. Após o luto inicial, isola-se, evita partilhas e relacionamentos. Apresenta rigidez no olhar e ombros fechados.
O Facing é mobilizado com movimentos de abertura dos ombros, vocalizações e contacto ocular progressivo. São integradas práticas expressivas (escrever cartas, criar gestos de despedida). O objetivo é Ana começar a retomar relações, encontrando formas simbólicas de manter o vínculo e reabrir-se ao mundo.
Nota sobre confidencialidade:
Os casos clínicos apresentados foram adaptados a partir de experiências reais em contexto terapêutico, com alterações significativas nos dados identificativos (nome, idade, detalhes biográficos) para proteger a privacidade das pessoas envolvidas. As narrativas mantêm, contudo, a fidelidade à experiência emocional e aos métodos terapêuticos primários abordados, respeitando os princípios éticos da confidencialidade e do sigilo profissional.
A Importância do Apoio Profissional
O acompanhamento psicoterapêutico pode ajudar a dar sentido, acolher a dor e facilitar a transição para uma nova etapa da vida. A Biossíntese, ao integrar corpo, mente e alma, oferece recursos profundos para que a pessoa possa sustentar-se emocionalmente e energeticamente durante o processo de luto.
Apesar da ausência de estudos quantitativos sobre a eficácia específica da Biossíntese no luto, há evidência teórica e clínica significativa. Estudos em abordagens semelhantes (Somatic Experiencing, Terapia Sensorimotor, MABT) demonstram que a consciência interocetiva, a regulação corporal e o toque consciente favorecem a resiliência emocional (Payne et al., 2015; Price & Hooven, 2018; Mehling et al., 2011).
Na prática clínica, observam-se mudanças consistentes: alívio de sintomas, reorganização emocional e recuperação da presença. A dor, quando acolhida no corpo, encontra caminhos de expressão e transformação.
Considerações Finais
O luto não se ultrapassa: transforma-se. Com o tempo, voltamos a pensar no futuro. Quando sentimos que as memórias trazem mais sorrisos que lágrimas, que o vínculo permanece sem dor sufocante — sabemos que chegámos a um novo lugar. Não voltámos a ser quem éramos, mas há agora espaço para algo novo.
Reencontrar paz com a perda não é esquecer, mas reconhecer que a vida continua em novos moldes, e que o amor pode encontrar outras formas de expressão e presença.
Referências Bibliográficas
Boadella, D. (1998). Biosynthesis: Somatic therapy and depth psychology. Karger.
Boelen, P. A., Lenferink, L. I. M., & Smid, G. E. (2023). Current approaches to complicated grief: Assessment and treatment. In M. S. Stroebe, H. Schut, & J. van den Bout (Eds.), Bereavement and mental health: Clinical challenges and treatment recommendations (pp. 85–108). Routledge.
Kübler-Ross, E. (1969). On death and dying. Macmillan.
Mehling, W. E., Price, C., Daubenmier, J. J., Acree, M., Bartmess, E., & Stewart, A. (2011). The multidimensional assessment of interoceptive awareness (MAIA). PLOS ONE, 7(11), e48230. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0048230
Neimeyer, R. A. (2012). Techniques of grief therapy: Creative practices for counseling the bereaved. Routledge.
Payne, P., Levine, P. A., & Crane-Godreau, M. A. (2015). Somatic experiencing: Using interoception and proprioception as core elements of trauma therapy. Frontiers in Psychology, 6, 93. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2015.00093
Price, C. J., & Hooven, C. (2018). Interoceptive awareness skills for emotion regulation: Theory and approach of Mindful Awareness in Body-oriented Therapy (MABT). Frontiers in Psychology, 9, 798. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2018.00798
Shear, M. K. (2022). Complicated grief and grief therapy: Understanding the nature and treatment of prolonged grief disorder. Guilford Press.
Stroebe, M. (2023). Grief transformed: New perspectives on continuing bonds. Cambridge University Press.
Van der Kolk, B. A. (2014). The body keeps the score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. Viking.
Worden, J. W. (2002). Grief counseling and grief therapy: A handbook for the mental health practitioner (3rd ed.). Springer Publishing.
Sobre mim

Catarina Lourenço de Carvalho
Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.
Especialização em Psicossomática, Epigenética, Trauma, Neurociência e Terapia de Casal.
Musicoterapeuta, Formadora e Supervisora Clínica.
Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.
📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677





















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