Psicoterapia Corporal: Fundamentos, Evolução Histórica e Aplicações Clínicas
- Catarina Carvalho
- 24 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
A Psicoterapia Corporal parte do princípio da indivisibilidade entre corpo e mente, onde as experiências emocionais se manifestam e registam também no plano físico (Geuter, 2024). Experiências traumáticas ou vivências adversas precoces podem originar padrões crónicos de tensão e posturas defensivas, que persistem mesmo na ausência de ameaça (Levine, 1997; van der Kolk, 2014).
Fundamentos teóricos e evolução histórica
A génese da psicoterapia corporal situa-se no trabalho pioneiro de Wilhelm Reich, na década de 1930, com o conceito de “armadura muscular” e a análise das defesas corporais (Reich, 1949, 1942). A partir destas ideias, desenvolveram-se diversas abordagens, cada qual com especificidades, mas partilhando o pressuposto da importância da integração corpo–mente para a cura psicológica.
Quadro 1 – Evolução cronológica das principais abordagens da Psicoterapia Corporal
Período | Autor(a) | Abordagem | Principais conceitos | Referências |
Década de 1930 | Wilhelm Reich | Vegetoterapia caracteroanalítica | Armadura muscular; análise do carácter; bloqueios emocionais | Reich, 1942; Reich, 1949 |
Década de 1950 | Alexander Lowen | Análise Bioenergética | Grounding; exercícios de libertação de energia; integração corpo–mente | Lowen, diversas obras |
Década de 1960 | David Boadella | Biossíntese | Correntes de vida; respiração, movimento, energia vital | Boadella, 1987 |
Década de 1960 | Stanley Keleman | Psicologia Formativa | Formas corporais como expressão das experiências emocionais | Keleman, 1971 |
Década de 1960-70 | Gerda Boyesen | Psicologia Biodinâmica | Reflexo psico-peristáltico; papel do sistema nervoso parassimpático | Boyesen, 1980 |
Década de 1970 | Ron Kurtz | Método Hakomi | Mindfulness; experimentação corporal para acesso a crenças centrais | Kurtz, 1990 |
Década de 1970 | Lisbeth Marcher | Análise Bodinâmica | Desenvolvimento psicomotor; mapeamento dos padrões musculares | Marcher & Fich, 2010 |
Década de 1990 | Peter Levine | Experiência Somática | Descarga gradual de energia traumática; foco nas sensações interoceptivas | Levine, 1997 |
Década de 2000 | Pat Ogden | Psicoterapia Sensorimotora | Integração corpo, emoção e cognição; trabalho na janela de tolerância | Ogden et al., 2006 |
Bases neurobiológicas
A investigação neurocientífica evidencia que memórias traumáticas permanecem ancoradas predominantemente em circuitos sensório-motores e emocionais, em detrimento das memórias narrativas verbais (van der Kolk, 2014). A psicoterapia corporal actua sobre estas redes, promovendo a integração cortical e a libertação dos padrões defensivos somáticos (Levine, 1997). Estudos recentes sugerem a relevância das representações somatosensoriais na experiência emocional (Reddan et al., 2024).
Aplicações clínicas
A psicoterapia corporal utiliza técnicas variadas para promover a integração corpo–mente, tais como:
Técnicas corporais: respiração consciente, posturas, toque terapêutico, movimentos expressivos;
Processamento emocional: diálogo reflexivo, ressignificação de memórias e crenças;
Consciência corporal: desenvolvimento da percepção dos estados fisiológicos e emocionais, favorecendo a autorregulação (Barratt, 2013).
Estas práticas ajudam os clientes a dissolver tensões crónicas e a assumir o controlo consciente das suas reações, anteriormente inconscientes ou desreguladas.
Conclusão
A Psicoterapia Corporal constitui uma área interdisciplinar em contínua evolução, na qual diversos autores desde Wilhelm Reich, na década de 1930, autores neorreichianos nas décadas de 1960 e 1970, aos autores contemporâneos que integram conhecimentos da neurobiologia, contribuem para uma base sólida de atuação em contexto clínico. A conjugação destas abordagens potencia intervenções integradas que atuam simultaneamente nos planos fisiológico, emocional e cognitivo da experiência humana.
Referências bibliográficas
Barratt, B. B. (2013). The emergence of somatic psychology and bodymind therapy. Palgrave Macmillan.
Boadella, D. (1987). Biosynthesis: Somatic therapy and the art of self-development. Routledge.
Boyesen, G. (1980). Biodynamic psychology: The collected papers (Vols. 1 & 2). London: Biodynamic Psychology Publications.
Geuter, U. (2024). Body psychotherapy: A theoretical foundation for clinical practice. Routledge.
Keleman, S. (1971). Human Ground: Sexuality, Self and Survival. Berkeley, CA: Center Press.
Kurtz, R. (1990). Body-centred psychotherapy: The Hakomi method. LifeRhythm.
Levine, P. A. (1997). Waking the tiger: Healing trauma. North Atlantic Books.
Lowen, A. (1958–2005). Language of the Body; Bioenergetics; Fear of Life; Honoring the Body [obras diversas]. Bioenergetics Press.
Marcher, L., & Fich, S. (2010). Bodynamic analysis: A psychomotor approach to developmental psychology. Psykologisk Forlag.
Ogden, P., Minton, K., & Pain, C. (2006). Trauma and the body: A sensorimotor approach to psychotherapy. Norton.
Reddan, M. C., Chang, L., Kragel, P., & Wager, T. D. (2024). Somatosensory and motor contributions to emotion representation. arXiv.
Reich, W. (1942). The function of the orgasm. New York, NY: Farrar, Straus and Giroux.
Reich, W. (1948). Listen, little man!. New York, NY: Farrar, Straus and Giroux.
Reich, W. (1949). Character analysis. New York, NY: Farrar, Straus and Giroux.
van der Kolk, B. (2014). The body keeps the score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. Viking.

Catarina Lourenço de Carvalho
Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.
Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.
Musicoterapia (Mestrado), integrando uma forte ligação artística — é violinista e contralto.
Formadora, Professora e Supervisora Clínica.
Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.
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