O valor de não saber: uma perspetiva fenomenológica sobre a memória no trabalho com o trauma
No trabalho com o trauma, uma das tentações mais persistentes é a de compreender rapidamente. Quando uma memória emerge, o impulso quase automático é classificá-la, explicá-la e inscrevê-la num modelo: trauma de desenvolvimento, PTSD, dissociação, negligência, apego desorganizado. Essa necessidade de nomear é compreensível, porque a teoria oferece orientação e reduz a incerteza. Mas essa pressa assenta num pressuposto que raramente se questiona: o de que a memória já contém, desde o início, o seu significado — como se bastasse ao terapeuta encontrar a chave certa para o abrir.
Este artigo defende que nem o significado, nem a própria memória enquanto fenómeno em formação, precedem a experiência: ambos se constituem no tempo, através do modo como o terapeuta se relaciona com o que ainda não compreende. É por isso que o não saber ocupa aqui um lugar central — não como uma lacuna a colmatar o mais depressa possível, mas como uma postura clínica que torna possível a emergência do sentido.
Três formas de não saber
O "não saber" de que aqui se fala não é uma carência, mas uma competência clínica. Vale a pena distinguir três atitudes que facilmente se confundem.
Há, em primeiro lugar, a ignorância: não saber porque não se conhece, uma lacuna de formação ou de experiência. Há, em segundo lugar, a suspensão fenomenológica: conhecer, e conhecer bem, mas colocar provisoriamente esse conhecimento entre parênteses para deixar o fenómeno aparecer por si. E há, em terceiro lugar, a humildade epistemológica: o reconhecimento de que todo o saber clínico é provisório perante a singularidade irredutível de cada experiência vivida.
É a segunda e a terceira destas atitudes que interessam aqui. Não se trata de saber menos, mas de saber de outro modo — de forma disponível, não apressada, capaz de ser corrigida pelo que a experiência ainda tem para mostrar.
Suspender, não ignorar
A fenomenologia propõe uma via precisa. Em vez de perguntar imediatamente "o que significa esta memória?", a atenção desloca-se para a pergunta anterior: "como é que esta memória se apresenta?". Husserl descreve este gesto como epoché: a suspensão da tese natural sobre o mundo, para que a experiência possa ser descrita tal como se dá, antes de qualquer juízo sobre a sua existência ou causa.
É importante não transpor este conceito para a clínica de forma direta. Husserl não estava a falar de psicoterapia. O que se pode dizer, com mais rigor, é que a atitude que a epoché inaugura inspira uma prática clínica em que o terapeuta suspende provisoriamente os seus enquadramentos teóricos para privilegiar a descrição da experiência vivida. É uma analogia fecunda, não uma aplicação literal.
A memória como experiência
No campo do trauma, a memória raramente surge primeiro como narrativa coerente. Muitas vezes aparece como alteração da respiração, tensão muscular, fragmento imagético, sensação vaga, impulso motor interrompido ou afeto sem história. A investigação fenomenológica sobre o trauma sublinha precisamente o caráter pré-reflexivo e passivo da experiência traumática, mostrando que a vivência do trauma não se reduz ao conteúdo recordado, mas envolve temporalidade, atenção, emoção e corporalidade.
Merleau-Ponty ajuda a aprofundar esta perspetiva ao recordar que a experiência humana é sempre corpórea. O corpo não é apenas o suporte da memória; é um dos seus lugares de manifestação. Na clínica, isto significa que uma recordação pode estar presente antes como modo de respirar do que como enredo verbal.
Mas Merleau-Ponty ajuda ainda a compreender algo mais decisivo: o significado não está contido na memória desde o início, pronto a ser extraído. Ele constitui-se temporalmente. Uma memória não chega já com o seu sentido fixado; o sentido vai-se formando ao longo do tempo, através das relações que essa experiência estabelece com outras memórias, com o corpo, com a história de vida e com a própria relação terapêutica. A compreensão não antecede a experiência — amadurece com ela. É por isso que uma interpretação precoce corre sempre o risco de fechar prematuramente algo que ainda estava em formação.
Mas não é apenas o significado que se constitui assim. A própria memória, enquanto processo experiencial, constitui-se temporalmente. Não é um objeto acabado que espera, algures, para ser recuperado tal como era. É antes um processo que continua a formar-se cada vez que se apresenta — na respiração, no tónus, na relação — e que só se estabiliza, sempre provisoriamente, através das sucessivas vezes em que é vivida e acompanhada. Tratar a memória como algo já constituído, à espera apenas de ser lido, é desconhecer esta dimensão fundamentalmente temporal do próprio fenómeno.
Biossíntese: integração da experiência
A Biossíntese oferece um enquadramento particularmente congruente com esta atitude. Boadella descreve o organismo como um sistema orientado para processos auto-integrativos: perante segurança, presença e relação suficientemente estáveis, a própria experiência encontra formas de organização cada vez mais integradas, sem que isso dependa de uma leitura externa que lhe atribua sentido.
Esta distinção tem consequências clínicas concretas. Quem integra é o próprio paciente — a integração é sempre um processo do organismo, não algo que o terapeuta possa fazer no seu lugar. Ao terapeuta cabe acompanhar esse processo e, nesse sentido, ajudar a organizar a experiência: não substituindo o trabalho de integração, mas criando as condições de segurança e presença que o tornam possível. Uma recordação pode emergir como sensação difusa, mudança tónica, emoção sem narrativa ou imagem fragmentada, e o trabalho clínico consiste precisamente em acompanhar esse processo de integração à medida que se desenvolve a partir de dentro.
Esta perspetiva aproxima-se também do conceito de felt sense de Eugene Gendlin. Há um saber implícito que ainda não encontrou forma verbal. Quando o terapeuta e a pessoa conseguem permanecer com essa sensação global, sem a forçar, a experiência pode avançar por si própria. Gendlin descreve este processo como carrying forward: algo muda porque a experiência encontrou espaço para se desdobrar, e não porque foi fechada por uma explicação.
O impulso de classificar
A cultura contemporânea valoriza a rapidez e a eficiência, e isso repercute-se na clínica. Quanto mais rapidamente reconhecemos uma categoria, mais seguros nos sentimos. Contudo, no trauma, a classificação prematura pode estreitar o campo de escuta. Em vez de perguntarmos "o que está aqui?", passamos a perguntar "a que categoria pertence?". É uma diferença subtil, mas clinicamente decisiva.
Há aqui algo que se pode chamar, sem exagero moral, uma forma subtil de violência epistemológica: não porque o terapeuta tenha más intenções, mas porque a interpretação precoce retira à experiência a possibilidade de dizer algo que ainda não sabíamos. Fechar um sentido antes do tempo é, também, uma forma de silenciar aquilo que só a espera teria deixado emergir.
Essa tensão tem também uma dimensão ética mais ampla. Estudos recentes sobre psicoterapia apontam que a humildade intelectual é um recurso epistemológico importante: o terapeuta precisa de reconhecer os limites do que sabe e manter-se disponível para rever a sua leitura clínica à luz da experiência concreta da pessoa. No contexto do trauma, isso é particularmente relevante, porque a experiência pode reorganizar-se com o tempo e ganhar sentidos novos à medida que novas memórias, relações e condições de segurança emergem.
O papel do terapeuta
O valor do não saber não está na ignorância, mas na disponibilidade. O terapeuta experiente não é aquele que identifica mais depressa um padrão; é aquele que consegue adiar o reconhecimento o suficiente para não trair a complexidade do vivido. Essa suspensão é uma forma de presença. Ela transmite à pessoa a mensagem de que a sua experiência não será reduzida a uma resposta automática, a uma etiqueta ou a uma teoria pronta.
Isto não significa rejeitar diagnóstico, conceptualização ou compreensão clínica. Esses instrumentos são indispensáveis. A questão é o lugar que ocupam no processo terapêutico. Quando entram demasiado cedo, tornam-se uma grade; quando entram no momento certo, tornam-se um mapa útil. A regra fenomenológica é simples: o mapa não deve substituir a paisagem.
Há uma palavra que talvez descreva melhor do que qualquer outra esta postura: hospitalidade. Hospitalidade clínica é a capacidade de receber uma memória antes de lhe pedir que diga quem é — de lhe dar lugar sem exigir, à entrada, que se apresente já nomeada. É uma ideia bela e, ao mesmo tempo, exigente para quem exerce a psicoterapia. Bela, porque devolve à experiência da pessoa o direito de chegar ao seu próprio ritmo. Exigente, porque pede ao terapeuta que tolere, durante o tempo que for preciso, a companhia de algo que ainda não compreende.
Uma clínica da presença
Talvez o contributo mais importante da fenomenologia para o trabalho com trauma seja este: compreender não é o primeiro passo. O primeiro passo é permanecer presente. Acompanhar uma memória sem a capturar demasiado depressa permite que ela revele dimensões que, no início, ainda não estavam disponíveis. Algumas memórias precisam de tempo antes de poderem ser compreendidas. Outras mudam de significado quando novas experiências se tornam possíveis. Há ainda as que só adquirem sentido muito mais tarde.
Simone Weil descreveu a atenção pura como uma forma de espera que não preenche o vazio antes do tempo. É essa mesma disciplina que aqui se propõe: suspender o pensamento que se apressa a concluir, para que seja a experiência, e não a teoria, a revelar o que ainda estava por dizer.
Na Biossíntese, esta postura coincide com a confiança na inteligência do organismo. O papel do terapeuta não é organizar prematuramente a experiência, mas criar as condições para que ela se revele. Nesse sentido, o oposto de interpretar não é ignorar. O oposto de interpretar é acompanhar — e acompanhar, no fundo, é a forma mais simples de hospitalidade que a clínica pode oferecer.
Referências
Boadella, D. (2016). Lifestreams: An introduction to biosynthesis. Routledge. (Original work published 1987)
Depraz, N. (2018). Trauma and phenomenology. Eidos. A Journal for Philosophy of Culture, 2(4), 53–74. https://doi.org/10.26319/4716
Gendlin, E. T. (1996). Focusing-oriented psychotherapy: A manual of the experiential method. Guilford Press.
Husserl, E. (1983). Ideas pertaining to a pure phenomenology and to a phenomenological philosophy: First book: General introduction to a pure phenomenology (F. Kersten, Trans.). Martinus Nijhoff Publishers. (Original work published 1913)
Merleau-Ponty, M. (2002). Phenomenology of perception (C. Smith, Trans.). Routledge. (Original work published 1945)
Stefanello, E. (2025). Intuition, empathy, and intellectual humility in psychotherapy: A philosophical perspective. Frontiers in Psychology, 16, 1590481. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2025.1590481
Van der Kolk, B. A. (1994). The body keeps the score: Memory and the evolving psychobiology of posttraumatic stress. Harvard Review of Psychiatry, 1(5), 253–265.
Weil, S. (1966). Attente de Dieu. Éditions Fayard. (Obra original publicada em 1950)
Catarina Lourenço de Carvalho
Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.
Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.
Musicoterapeuta no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital Garcia de Orta.
Co-coordenadora da Escola Portuguesa de Biossíntese.
Supervisora Clínica.
Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.
📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677





















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