O Papel do Psicoterapeuta na Integração de Experiências com Psicadélicos: entre Ciência, Espiritualidade e Corpo
- Catarina Carvalho
- 3 de ago. de 2025
- 8 min de leitura
A medicina psicadélica ressurgiu nas últimas duas décadas como uma proposta inovadora para o tratamento de condições como depressão resistente, stress pós-traumático, ansiedade existencial e sofrimento espiritual.
O crescente interesse pelos psicadélicos tem dado origem a um campo plural, onde diferentes contextos de uso coexistem: médico, terapêutico, espiritual e recreativo. Embora a investigação científica e clínica se concentre no potencial terapêutico de substâncias como a psilocibina, o MDMA ou a cetamina, é importante reconhecer que estas experiências também ocorrem em espaços rituais, festivais, práticas espirituais e contextos exploratórios pessoais. Esta diversidade de usos levanta questões sobre enquadramento, intenção, segurança, legalidade e integração, e desafia os profissionais de saúde mental a ampliar a sua compreensão dos significados atribuídos às experiências psicadélicas nas vidas das pessoas.
Apartir da literatura atual, este artigo procura apresentar e discutir os usos terapêuticos, desafios éticos, contra-indicações, e o lugar do corpo e da relação terapêutica neste processo.
Explora-se ainda como o psicoterapeuta, especialmente com formação em psicoterapia corporal, pode desempenhar um papel fundamental na preparação, acompanhamento e integração de experiências psicadélicas.
O contexto clínico e científico atual dos psicadélicos
Autores como Michael Pollan (2018) e Peter Gasser (2021) documentaram os avanços na investigação com substâncias como MDMA, psilocibina e cetamina. Pedro Teixeira (2022) contribui com um panorama abrangente da investigação em língua portuguesa, salientando o potencial terapêutico destas substâncias, a necessidade de regulamentação ética e os desafios de tradução científica e cultural deste campo. A obra de Teixeira apresenta também resultados de estudos nacionais sobre ayahuasca, crenças dos profissionais de saúde mental, e explora a ligação entre psicadélicos, espiritualidade e desenvolvimento pessoal.
João da Fonseca (2025), em entrevista recente à revista PSIS21, reforça que a cetamina, por estar legalizada e acessível, tem sido uma substância de ponte para abordagens mais seguras e controladas, permitindo intervenções psicoterapêuticas profundamente transformadoras. Para o autor, o contexto seguro, a intencionalidade e a preparação do terapeuta são mais determinantes do que a substância em si.
Riscos, contraindicações e ética no uso terapêutico de psicadélicos
No dia 12 de maio de 2025, foi apresentado o documento “Recomendações Multidisciplinares sobre o Uso Clínico de Substâncias Psicadélicas”, durante um encontro promovido pela Fundação Champalimaud. Este documento resulta da colaboração entre diversas entidades nacionais, nomeadamente a Ordem dos Psicólogos Portugueses, a Ordem dos Médicos, a Ordem dos Farmacêuticos, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNCEV), a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental e a própria Fundação Champalimaud, que acolheu e organizou a iniciativa (Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2025).
As recomendações visaram o enquadramento clínico e ético do uso de substâncias psicadélicas em contexto terapêutico, propondo que estas sejam reguladas como medicamentos, com prescrição médica obrigatória e administração exclusivamente em ambiente hospitalar. Foi também destacada a necessidade de formação específica para os profissionais envolvidos – tanto médicos como psicoterapeutas –, o reforço do consentimento informado, e a equidade no acesso aos tratamentos.
O grupo de trabalho alertou ainda para os riscos associados ao uso fora do circuito médico e à apropriação comercial indevida da evidência científica.
“Não deve haver regimes de exceção para estas substâncias, mesmo quando utilizadas em contexto terapêutico.”
Já em 2022, Teixeira enfatiza a importância de um enquadramento legal claro e de práticas baseadas em evidência científica para proteger os participantes e os profissionais envolvidos. Fonseca (2025) sublinha a importância de preparação e triagem adequada: pacientes com historial de psicose, bipolaridade descompensada, ou estruturas egóicas frágeis podem não beneficiar — ou até ser prejudicados — com estas experiências. Shetreat (2023) também alerta para a necessidade de trabalhar com facilitadores qualificados, com sólida formação e ética rigorosa.
No documento do Grupo de Trabalho Multidisciplinar (OPP, 2025) sublinha-se que a transformação destas substâncias em medicamentos exige rigor, proteção dos utentes e clareza regulamentar, especialmente em situações “off-label” ou ainda sem pareceres das autoridades reguladoras.
Defender uma prática mais ética, fundamentada e humanizada, face à medicalização apressada e mercantilização deste campo torna-se fundamental (Fonseca, 2025). No entanto, é necessário reforçar que o uso de psicadélicos em Portugal acontece em contextos diferenciados — biomédicos, terapêuticos, espirituais e recreativos.
Perspectiva espiritual e xamânica
Em The Master Plant Experience, Maya Shetreat (2023) propõe uma abordagem à medicina psicadélica que vai além do modelo biomédico tradicional. A autora defende uma perspetiva espiritual, ecológica e relacional com as “plantas mestres”, onde a cura não se encontra apenas na molécula, mas no vínculo com o espírito da planta, no ritual e na intenção que se coloca no processo. Para Shetreat, a integração exige um corpo disponível, um sistema nervoso regulado e um terapeuta que reconheça e acompanhe a sabedoria somática e espiritual do processo.
Esta visão é partilhada por outros autores que abordam o uso de substâncias psicadélicas no contexto de práticas espirituais e xamânicas. Stanislav Grof, um dos fundadores da psicologia transpessoal, considera os estados alterados de consciência como veículos de acesso ao inconsciente profundo e ao transpessoal, propondo que experiências psicadélicas podem facilitar um sentido ampliado do self e da conexão com o todo (Grof, 1980). A sua abordagem inclui cartografias da mente que integram experiências biográficas, perinatais e transpessoais.
Christopher Bache (2019), através do seu trabalho pessoal com LSD em contexto meditativo, relata experiências de dissolução do ego e ligação com a consciência cósmica, propondo que a mente humana é capaz de acessar níveis de realidade profundamente espirituais através dos psicadélicos.
Rick Strassman (2001), em estudos com DMT, documenta relatos de experiências espirituais e de contacto com entidades numéricas ou interdimensionais. Apesar de manter uma abordagem científica, reconhece que muitos participantes relatam vivências que se aproximam do misticismo ou da espiritualidade visionária.
Rachel Harris (2017), psicóloga clínica, explora o uso da ayahuasca por mulheres em contextos espirituais e terapêuticos. Salienta que estas experiências frequentemente conduzem a mudanças de vida significativas, reconexão com valores essenciais e percepções espirituais transformadoras.
Por outro lado, Jeremy Narby (1998), antropólogo, ao estudar a ayahuasca com povos indígenas da Amazónia, argumenta que o conhecimento transmitido durante as cerimónias tem uma dimensão espiritual e simbólica que não pode ser reduzida à farmacologia. Para Narby, estas plantas comunicam, ensinam e curam num plano onde ciência e espiritualidade ainda precisam dialogar.
Estas perspetivas convergem na ideia de que o potencial terapêutico dos psicadélicos não se resume aos seus efeitos neuroquímicos, mas inclui uma dimensão espiritual e simbólica que pode catalisar processos profundos de transformação. Para o psicoterapeuta corporal com sensibilidade transdisciplinar, reconhecer e acolher esta dimensão torna-se essencial — respeitando o mistério da experiência e oferecendo um espaço seguro para a sua exploração e integração.
Entre o clínico e o recreativo: psicadélicos na cultura contemporânea
O uso de psicadélicos transcende o campo médico ou terapêutico, fazendo parte de uma cultura mais vasta de experimentação com estados alterados de consciência. Autores como Terence McKenna (1992) e Timothy Leary (1964) defenderam o uso destas substâncias como ferramentas de expansão da mente, criadoras de novas possibilidades de perceção, criatividade e transformação pessoal fora do modelo clínico tradicional. Aldous Huxley (1954) antecipou já na década de 1950 o potencial filosófico e estético da mescalina para acessar o “espírito das coisas”, enquanto Erik Davis (2019) e Nicolas Langlitz (2012) analisam o impacto sociocultural do chamado “renascimento psicadélico”.
Estes autores destacam que a experiência psicadélica pode ser vivida como um ritual moderno, um ato político, uma busca espiritual, ou simplesmente uma celebração hedonista. A distinção entre “uso terapêutico” e “uso recreativo” nem sempre é clara, sendo muitas vezes a intenção subjetiva e o contexto a definir a natureza da experiência. Doblin (2019) (MAPS), fundador da Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS), tem sublinhado a importância de garantir segurança e informação também para os usos não-clínicos, defendendo políticas não proibicionistas que respeitem a autonomia das pessoas sem descurar os riscos associados.
O papel do corpo na integração psicadélica
Diversas abordagens da psicoterapia corporal convergem na compreensão de que o corpo é um sistema vivo de inscrição de experiências emocionais, relacionais e somáticas. David Boadella (1997) descreve o corpo como uma “biografia em movimento”, onde se manifestam padrões de autorregulação e memória emocional.
O corpo carrega narrativas implícitas da história de apego e trauma, frequentemente inacessíveis à linguagem verbal (Ogden, Minton & Pain, 2006).
Numa experiência psicadélica, conteúdos inconscientes e experiências pré-verbais podem emergir com força somática. Uma vez que o trauma só pode ser processado a partir da escuta sensível das sensações corporais (Levine, 2010), a abordagem somática torna-se essencial para promover a integração e regulação (Rothschild, 2000).
"Muitas memórias traumáticas são armazenadas de forma implícita."
O corpo torna-se o terreno onde estas experiências ganham forma e profundidade, sendo necessário um setting terapêutico que facilite contenção, regulação e elaboração somática (Fonseca, 2025).
O psicoterapeuta corporal pode então atuar como regulador do campo relacional e como facilitador da reintegração corporal de vivências intensas. A respiração, o toque terapêutico, o grounding e a escuta empática são ferramentas cruciais no processo de metabolização destas experiências.
A relação terapêutica como elemento transformador
Mais do que a substância em si, é a relação terapêutica e a capacidade de dar significado à experiência que promove mudança duradoura.
As terapias com uso de psicadélicos são comparáveis a sonhos que emergem com conteúdos criativos e que exigem um ambiente seguro para serem integrados.
O papel do terapeuta é acolher, refletir, conter e ajudar o cliente a reorganizar-se em direção à saúde e à liberdade. Esta relação, com base no reconhecimento da subjetividade, torna-se o verdadeiro veículo de transformação (Fonseca, 2025).
Considerações finais
À medida que a ciência avança e a legalização se expande, será cada vez mais necessário formar terapeutas preparados para este tipo de trabalho com responsabilidade, presença e profunda humanidade. Nos últimos anos, têm surgido na literatura casos que ilustram como é possível aliar prática clínica, ciência e consciência ética num modelo de atuação integrado e sensível às necessidades da pessoa.
A compreensão das múltiplas dimensões torna-se essencial para psicoterapeutas e clínicos, particularmente quando acompanham processos de integração de experiências vividas fora do ambiente terapêutico formal. O desafio está em acolher estas narrativas sem julgamento, oferecendo um espaço de escuta, compreensão somática e reintegração emocional e simbólica, onde a experiência – independentemente do seu enquadramento original – possa contribuir para o crescimento e autorregulação da pessoa.
A psicoterapia assistida por psicadélicos requer uma postura interdisciplinar, integrando neurociência, somática, espiritualidade e ética clínica. O psicoterapeuta corporal, com a sua sensibilidade ao corpo e à relação, está particularmente bem posicionado para este desafio.
Referências bibliográficas
Boadella, D. (1997). Essays on biosynthesis: Somatic therapy and the art of self-regulation. Biosynthesis Press.
Doblin, R. (2019). Psychedelics and the Future of Psychiatry. MAPS Bulletin, 29(1), 2–7. https://maps.org
Fonseca, J. da. (2025). Terapia assistida por cetamina: entre o corpo, o trauma e a consciência. PSIS21 – Revista da Ordem dos Psicólogos Portugueses, 35, 9–13.
Gasser, P. (2021). Psychedelic-assisted psychotherapy: A manual for MDMA, LSD, psilocybin, and ketamine. Inner Traditions.
Levine, P. A. (2010). In an unspoken voice: How the body releases trauma and restores goodness. North Atlantic Books.
Ogden, P., Minton, K., & Pain, C. (2006). Trauma and the body: A sensorimotor approach to psychotherapy. W. W. Norton & Company.
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2025, maio 16). Recomendações Multidisciplinares sobre o Uso Clínico de Substâncias Psicadélicas. https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/5614
Pollan, M. (2018). How to change your mind: What the new science of psychedelics teaches us about consciousness, dying, addiction, depression, and transcendence. Penguin Press.
Rothschild, B. (2000). The body remembers: The psychophysiology of trauma and trauma treatment. W. W. Norton & Company.
Shetreat, M. (2023). The master plant experience: The science, safety & sacred ceremony of psychedelics. EnRealment Press.
Teixeira, P. J. (2022). Psicadélicos em português: Ciência, consciência e integração. Lua de Papel.

Catarina Lourenço de Carvalho
Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.
Especialização em Psicossomática, Epigenética, Trauma, Neurociência e Terapia de Casal.
Musicoterapeuta, Formadora e Supervisora Clínica.
Coordenadora e Professora na Escola Portuguesa de Biossíntese
Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.
📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677





















Comentários