O Corpo que Recorda o Nascimento — Ciência, Corpo e Consciência no Trauma Pré-natal
- Catarina Carvalho
- 14 de out. de 2025
- 9 min de leitura
O nascimento como biografia do corpo
O nascimento é o primeiro gesto de relação com o mundo — um acontecimento em que a biologia se torna narrativa. A psicologia pré e perinatal tem vindo a demonstrar que as experiências vividas no útero e durante o parto estruturam a matriz de segurança e de confiança do ser humano (Chamberlain, 1998, 2013; Verny, 2014). O corpo, longe de ser mero veículo fisiológico, é o primeiro texto da biografia: nele se inscrevem as marcas, os ritmos e as memórias das primeiras trocas afetivas.
Catherine Menzam-Sills (2025) introduz o conceito de sombra pré-natal para descrever as impressões emocionais e fisiológicas que se formam antes e durante o nascimento e que influenciam padrões de vinculação, regulação emocional e percepção de suporte. A autora propõe que a cura não se dá apenas pela evocação consciente, mas pela reintegração somática dessas experiências — um processo que requer presença corporal e relação segura.
A neurobiologia contemporânea confirma a sabedoria desta visão. Estudos de Kerstin Uvnäs Moberg (2016) e Sarah Buckley (2018) revelam que a oxitocina, a prolactina e as endorfinas regulam a calma, o vínculo e o prazer, criando uma fisiologia da confiança. O nascimento, quando respeitado, ativa circuitos hormonais de amor e pertença; quando perturbado, instala padrões de stress e retraimento. Assim, corpo, emoção e vínculo formam uma tríade inseparável na génese do self.
O corpo que sente: matrizes afetivas e memória somática
A fenomenologia do corpo encontra, na obra de David Boadella (1987) e Francis Mott (1960), uma compreensão profunda das origens pré-natais do sentir. Ambos conceberam o feto como ser relacional, imerso num “oceano afetivo” partilhado com a mãe. Mott identificou três fluxos de experiência ligados às camadas germinativas do embrião — o afeto pele com pele, o afeto cinestésico e o afeto umbilical — que formam as matrizes somáticas da vida emocional.
Boadella (1987) desenvolveu essa visão na Biossíntese, descrevendo o corpo como lifestream, um fluxo contínuo de energia que liga movimento, respiração e sentimento. Quando as experiências pré-natais são harmoniosas, este fluxo permanece aberto e flexível; quando marcadas por medo, compressão ou isolamento, o corpo contrai-se, registando o trauma sob a forma de padrões tónicos e emocionais de defesa.
Estas matrizes não são apenas vestígios do passado. São mapas que orientam, na vida adulta, o modo como tocamos, confiamos e respiramos. O corpo recorda — não como lembrança cognitiva, mas como gesto, temperatura, tensão e impulso.
A inscrição somática do trauma: da sombra à presença
A sombra pré-natal de Menzam-Sills (2025) e a memória muscular de Marcher e Ollars (1989) descrevem, em linguagens distintas, o mesmo fenómeno: a permanência de experiências intrauterinas e de nascimento no tecido corporal. Intervenções médicas invasivas, separações precoces ou emoções maternas intensas podem inscrever-se sob a forma de contrações musculares, hipervigilância ou medo de expansão.
Como observa Lisbeth Marcher (2025), “o nascimento é um processo de sucessivos movimentos reflexos. Não é impulso que vem do sistema motor, mas sim instinto que vem do sistema reflexo.” Esta distinção é fundamental: o bebé não “decide” nascer — ele responde a uma sequência instintiva de reflexos corporais que emergem do sistema nervoso autónomo. No modelo Bodynamic, essa sequência reflexa constitui o primeiro padrão de autorregulação e de contacto com o ambiente.
Quando o processo de nascimento é interrompido ou medicalizado de forma excessiva, essas respostas reflexas podem ficar incompletas, traduzindo-se em tensões musculares ou dificuldades de enraizamento corporal na vida adulta. A terapia de reorientação do nascimento (reorienting birth) procura precisamente permitir que o corpo complete, em segurança e presença, os movimentos reflexos que ficaram suspensos, restabelecendo o ritmo natural entre impulso e contenção.
A via neurobiológica da reparação: o amor como regulação
A ciência da vinculação confirma a dimensão relacional do nascimento. Moberg (2016) denomina a oxitocina como “a molécula do amor”, e Buckley e Moberg (2018) demonstram que o contacto pele com pele, o toque e o olhar materno estimulam estados neuroquímicos de calma e segurança. O parto consciente, tal como defendido por Frédérick Leboyer (2009), não é apenas uma escolha humanista: é um ato de regulação biológica e emocional. A ausência de violência, a luz suave e o silêncio não são luxos estéticos, mas condições para que o corpo-mãe e o corpo-bebé se encontrem em sintonia neurofisiológica.
Integrar estas descobertas com a compreensão somática do trauma permite ver o parto como um rito de passagem que pode ser vivido ou reconfigurado. O reencontro entre neurobiologia e fenomenologia devolve à experiência de nascer o seu estatuto sagrado e concreto: corpo e espírito em diálogo.
Corpo, consciência e pertença: a dimensão simbólica do renascimento
Francis Mott (1960) e David Boadella (1987) já haviam intuído que o nascimento é mais do que um evento fisiológico: é o arquétipo do vir-a-ser. A cada contração, o ser humano aprende sobre pressão e resistência; a cada expansão, sobre confiança e entrega. Estas polaridades estruturam a matriz da personalidade e o modo de estar no mundo.
Menzam-Sills (2025) aprofunda este entendimento ao sugerir que a sombra pré-natal é também uma sombra relacional — tecida na intersubjetividade mãe-filho. A reparação implica, por isso, uma re-ligação ao campo de pertença, uma experiência de ser acolhido novamente no corpo e na relação. O trabalho terapêutico torna-se, assim, um segundo nascimento, onde o corpo encontra nova narrativa para antigas memórias.
A fenomenologia do corpo mostra que não há separação entre biologia e biografia: cada respiração é um ato de integração. O corpo é, simultaneamente, testemunha e caminho — o lugar onde a sombra se converte em presença.
A epistemologia corporificada: entre ciência, experiência e simbolismo
Do corpo simbólico ao corpo cognoscente
Se o corpo que recorda o nascimento é também o corpo que cura, importa agora compreender como essa recordação pode ser estudada, validada e integrada no âmbito de uma ciência corporal. A experiência do nascimento, com o seu duplo carácter fisiológico e simbólico, desafia as fronteiras tradicionais entre o empírico e o experiencial. O que se manifesta nos músculos e na respiração — o impulso de emergir, o medo da separação, o alívio da chegada — contém tanto uma dimensão biológica quanto uma linguagem simbólica da consciência.
Explorar esta interseção implica desenvolver um método que una observação e sentido, isto é, uma epistemologia capaz de reconhecer no sentir um modo legítimo de conhecer. É neste ponto que a investigação contemporânea sobre o trauma pré-natal se encontra: entre a precisão da medição e a profundidade da experiência, entre a ciência e a poética do corpo.
Corpo e conhecimento: uma nova epistemologia do sentir
A integração entre ciência e simbolismo exige uma metodologia que reconheça o valor epistémico da experiência vivida. A fenomenologia e a neurobiologia, embora partam de paradigmas distintos, convergem na ideia de que a consciência é inseparável do corpo. O desafio contemporâneo consiste, portanto, em construir pontes entre dados empíricos e narrativas subjetivas, validando o sentir como via de conhecimento e como expressão de uma racionalidade corporificada.
O estudo do trauma pré-natal constitui um campo paradigmático para esta nova epistemologia corporal, na qual sentir, pensar e curar se tornam dimensões interdependentes de um mesmo processo. A ciência, neste contexto, não é antítese da experiência, mas a sua tradução: uma linguagem que procura tornar visível o invisível do corpo.
A dimensão empírica da experiência corporal do nascimento
A proposta integradora entre ciência, corpo e consciência, para além da sua força teórica e simbólica, requer também uma fundamentação empírica que legitime as correlações entre fisiologia, vínculo e experiência somática. Incorporar dados observáveis não significa reduzir a complexidade do vivido, mas traduzir o sentir em parâmetros verificáveis, permitindo um diálogo fecundo entre experiência subjetiva e ciência contemporânea.
A investigação neurobiológica oferece um primeiro eixo de validação. Estudos recentes (Leisman, Alfasi, & D’Angiulli, 2025; Moberg, 2016; Buckley & Moberg, 2018) demonstram que os níveis de oxitocina, prolactina e cortisol variam significativamente consoante o grau de intervenção e de contacto físico durante o parto, modulando estados de calma, pertença e confiança. Leisman et al. (2025) mostram que a regulação emocional depende de circuitos amígdala–pré-frontal formados desde a vida fetal, sendo fortemente influenciados pelas trocas sensoriais e afetivas precoces. A recolha sistemática desses indicadores, associada a observações comportamentais — como o contacto pele com pele, o olhar e a regulação tónica do bebé — permitiria quantificar a fisiologia do vínculo e testar empiricamente a hipótese de que o parto consciente favorece padrões hormonais e neuronais de segurança e apego.
Num segundo eixo, a experiência psicológica oferece instrumentos de avaliação da vinculação e da autorregulação emocional nas díades mãe-bebé. Protocolos baseados em observação (Ainsworth et al., 1978; Feldman, 2017) e estudos recentes (Santaguida & Bergamasco, 2024) permitem correlacionar a qualidade do vínculo inicial com a natureza das experiências de nascimento. Santaguida e Bergamasco (2024) argumentam que formas prototípicas de apego podem emergir já no útero, influenciadas por estímulos afetivos e hormonais maternos, reforçando a pertinência de estudar o trauma pré-natal como fenómeno de matriz relacional e neurobiológica. A análise longitudinal dessas variáveis, em diferentes contextos de parto, tornaria visível o impacto duradouro das primeiras vivências corporais sobre o desenvolvimento afetivo e relacional.
Por fim, a abordagem fenomenológica mantém-se indispensável para compreender o que escapa à medição. Entrevistas aprofundadas, diários corporais e análises de processos terapêuticos de integração pré-natal podem revelar invariantes experienciais — sensações de calor, fluidez, expansão, medo ou libertação — que exprimem o modo como o corpo recorda e reorganiza o trauma. Estudos recentes em psicoterapia somática (Invitto & Moselli, 2024) demonstram que práticas corporais e bioenergéticas podem aceder a memórias sensoriais profundas, incluindo componentes olfativas e tácteis, que se revelam essenciais para a reparação de traumas precoces. Esta dimensão empírica da experiência vivida fornece uma base metodológica para investigar o corpo como arquivo de memória, sem reduzir o simbólico ao mensurável.
Ciência, experiência e sentido: um paradigma corporificado
A combinação destes três planos — neurobiológico, psicológico e fenomenológico — constitui uma epistemologia corporal, capaz de unir observação, experiência e sentido. A dimensão empírica, longe de se opor à simbólica, amplia o campo da evidência, permitindo que a ciência reconheça, no corpo que sente e se transforma, uma fonte legítima de conhecimento e validação. Ao integrar as descobertas da neurociência, os instrumentos da psicologia do vínculo e as narrativas fenomenológicas da experiência somática, o estudo do nascimento transforma-se num espaço de diálogo entre o visível e o invisível, entre o mensurável e o vivido.
Nesta perspetiva, a epistemologia corporal não é apenas uma teoria do conhecimento, mas uma ética do sentir: uma forma de devolver ao corpo o seu estatuto de sujeito cognoscente e de reintroduzir a dimensão simbólica no coração da ciência. A investigação sobre o nascimento e o trauma pré-natal torna-se, assim, um laboratório de reconciliação entre as linguagens do corpo e da consciência, entre a objetividade da medição e a subjetividade da presença — um território onde saber e ser se tornam inseparáveis.
Reflexões finais: ciência, símbolo e clínica do nascimento
A convergência entre as abordagens neurobiológicas e psicocorporais permite uma visão ampliada do nascimento e da cura. A ciência explica o como — os mecanismos hormonais, neuronais e relacionais —; a fenomenologia revela o sentido — o modo como o corpo experiencia, transforma e simboliza. Integrar ambos é reconhecer que o ser humano nasce repetidamente: cada vez que transforma uma contração em gesto, um medo em confiança, uma defesa em relação.
Clinicamente, esta integração oferece ferramentas tanto para obstetras e psicólogos quanto para psicoterapeutas corporais e educadores somáticos. Promover o parto consciente, o contacto precoce e o trabalho de integração somática é investir na saúde emocional e relacional das gerações futuras.
No plano simbólico, nascer é reencontrar o fluxo da vida — o mesmo que pulsa na respiração, no toque e no olhar. O corpo que recorda é também o corpo que cura: um território onde ciência e alma se encontram.
Referências bibliográficas
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Catarina Lourenço de Carvalho
Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.
Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.
Musicoterapia (Mestrado), integrando uma forte ligação artística — é violinista e contralto.
Formadora, Professora e Supervisora Clínica.
Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.
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