top of page

Marcas da Ausência Parental no Corpo da Mulher — Perspectiva Psicossomática e Arquetípica

  • Foto do escritor: Catarina Carvalho
    Catarina Carvalho
  • 10 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Nem sempre a ausência é visível. Há presenças silenciosas, distantes, que não chegam a tocar verdadeiramente. Há mães que estiveram lá todos os dias, mas não souberam amar de forma disponível e acolhedora. Há pais que sustentaram a casa, mas nunca olharam a filha nos olhos. A ausência emocional — da mãe, do pai ou de ambos — deixa marcas profundas no corpo, na autoimagem, na forma como uma mulher se relaciona consigo, com os outros e com o mundo.


A ferida materna: ausência de vinculação e nutrição

De acordo com Winnicott (1965), a relação com a mãe primária está na base da formação do verdadeiro self. Quando essa mãe é ausente, intrusiva ou fria, a criança desenvolve um falso self para sobreviver. Alice Miller (1997) explora como muitas mulheres se moldaram ao ideal materno, desconectando-se da sua verdade. Clarissa Pinkola Estés (1992) revela, por meio dos contos arquetípicos, como essa ferida gera exaustão, perfeccionismo e carência crónica.


A ferida paterna: ausência de afirmação e proteção

Susan Schwartz (2020) descreve o "efeito do pai ausente" como um vazio de estrutura e reconhecimento. A figura paterna, na sua função simbólica, representa o eixo da afirmação e da identidade. Quando o pai não desempenha esse papel, instala-se a autonegação, a insegurança e a busca constante por validação externa. Marion Woodman (1985) aprofunda esta questão relacionando-a com distúrbios corporais, como a dissociação e a anorexia.


Corpo, trauma e memória somática

A psicoterapia somática, nomeadamente a Biossíntese (Boadella, 1987), considera que o trauma emocional se armazena no corpo em forma de tensões crónicas, bloqueios respiratórios e estagnação de energia. Peter Levine (1997) e Bessel van der Kolk (2014) confirmam, através da neurociência, que o corpo “lembra” o que a mente reprime. A ausência de contato afetivo deixa um corpo colapsado, ansioso ou hiperalerta.


A integração através do corpo e do simbolismo

Cuidar dessas feridas é um caminho que inclui consciência emocional, reconexão corporal e elaboração simbólica. A psicologia analítica (Jung, 1953) propõe o trabalho com arquétipos para restaurar imagens internas maternas e paternas. O trabalho corporal somático permite dar voz à memória silenciada, abrir espaço para o luto e integrar novos padrões de relação.


Considerações Finais

As feridas de ausência não são uma sentença. Podem ser o ponto de partida para uma reconexão com o corpo, com os limites, com o prazer e com a verdade interna. Através de caminhos que envolvem o corpo, a escuta, o grupo e o simbolismo, é possível transformar e reconstruir-se.


Nota Final: Estas reflexões estão na base dos cursos "O Efeito da Mãe Ausente no Corpo da Mulher" e "O Efeito do Pai Ausente no Corpo da Mulher", onde proponho uma vivência psicocorporal, simbólica e afetiva para transformar estas feridas através da consciência e da presença.

Mais informação e inscrição aqui: https://catarinalourencocarvalho/cursos


Referências Bibliográficas

Boadella, D. (1987). Biosynthesis: Somatic analysis and depth-psychology. International Institute for Biosynthesis.

Bowlby, J. (1988). Apego e perda: A formação dos laços afectivos (Vol. 1). Martins Fontes.

Estés, C. P. (1992). Mulheres que correm com os lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rocco.

Jung, C. G. (1953). Os arquétipos e o inconsciente colectivo (Vol. 9/1). Vozes.

Levine, P. A. (1997). Waking the tiger: Healing trauma. North Atlantic Books.

Miller, A. (1997). O corpo nunca mente: O impacto do passado na vida adulta. Martins Fontes.

Schwartz, S. E. (2020). The absent father effect on daughters: Father desire, father wounds. Routledge.

Van der Kolk, B. (2014). The body keeps the score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. Viking.

Woodman, M. (1985). The ravaged bridegroom: Masculinity in women. Inner City Books.

Winnicott, D. W. (1965). The maturational processes and the facilitating environment. Hogarth Press.


Catarina Lourenço de Carvalho

Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.

Especialização em Psicossomática, Epigenética, Trauma, Neurociência e Terapia de Casal.

Musicoterapeuta, Formadora e Supervisora Clínica.


Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.


📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677


Comentários


Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
bottom of page