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Sobre a Solidão e a Lucidez

  • Foto do escritor: Catarina Carvalho
    Catarina Carvalho
  • 27 de jul. de 2025
  • 4 min de leitura
Entre a dor do isolamento e a potência do reencontro, a solidão revela-se como linguagem do corpo e maturidade da alma.

A Solidão como Experiência Somática

O ser humano é um organismo vivo em processo — cada escolha, cada gesto e cada silêncio revela algo da nossa história corporificada. O que muitas vezes chamamos de "individualidade" não é apenas um conceito mental, mas uma organização energética, corporal e relacional que se estrutura ao longo da vida, entre vínculos e rupturas.


A solidão, portanto, não é apenas um estado emocional — é uma experiência somática. É sentida no corpo que se contrai, nos músculos que se armam para suportar a ausência, na respiração que se torna curta quando nos desconectamos do outro e de nós mesmos (Boadella, 1987; Van der Kolk, 2015).


A linguagem corporal da solidão pode ser vista como um registo inconsciente de todas as vezes em que não fomos tocados, acolhidos ou escutados. Na linguagem de Wilhelm Reich (1949), este registo somático relaciona-se com a função defensiva das couraças musculares — estruturas que protegem o sujeito, mas aprisionam o seu fluxo vital.


A Solidão do Livre-Arbítrio

Quando falamos de livre-arbítrio, falamos também da autonomia do sistema nervoso, da possibilidade de responder e não apenas reagir. A individualidade que tanto prezamos surge, em grande parte, dessa responsabilidade interna: ninguém pode respirar por nós, decidir por nós, sentir por nós.


Essa condição revela a nossa unicidade — mas também a nossa vulnerabilidade. Ao não podermos delegar a vivência íntima, nasce a solidão: não como castigo, mas como efeito colateral da consciência (Sartre, 2007; Kierkegaard, 2000).


O Paradoxo da Separação e da Ligação

Na linguagem da Biossíntese, o paradoxo da vida está na tensão entre separação e ligação. Ser indivíduo é, ao mesmo tempo, separar-se do todo e desejar reencontrá-lo. Somos seres de fronteiras: habitamos o limiar entre o dentro e o fora, entre o que sentimos e o que o mundo nos devolve (Boadella & Boadella, 2013).


Mas essa solidão não é absoluta. O corpo sabe — mesmo quando a mente duvida — que pertencemos.

Viemos de um tecido relacional. A nossa matriz é o vínculo.

A verdadeira dor não está em estarmos sós, mas em nos sentirmos separados de forma crónica, sem escuta, sem ressonância, sem toque. A solidão que adoece é a que endurece os tecidos, que congela o gesto, que retira a voz (Stern, 2004).


O absurdo nasce do confronto entre o desejo de sentido e o silêncio do mundo.

A Lucidez como Presença Autêntica

A lucidez, longe de ser mera clareza racional, é um estado existencial de coragem e presença. Para Camus (2012), ela consiste em viver plenamente mesmo diante da ausência de sentido, assumindo a vida sem garantias. Heidegger (2012), por sua vez, compreendia a lucidez como autenticidade — a capacidade de o ser humano se confrontar com a finitude e reconhecer-se como ser-para-a-morte.


Assim, a lucidez emerge do reconhecimento dos limites da existência e da responsabilidade de habitá-la com verdade. Não é um exercício mental: é estar no corpo com consciência. É sentir a dor sem colapsar, sustentar o vazio sem fugir. É reconhecer a tristeza como parte do nosso campo energético — um movimento natural, que pede acolhimento e não repressão (Boadella, 1992).


Jung (1989) referia-se à individuação como o processo de tornar-se quem se é, e essa jornada implica muitas vezes atravessar desertos de silêncio e solidão. A lucidez, assim, é também espiritual: uma maturidade da alma que se conquista ao reconhecer que há um sentido na travessia.


Há momentos em que a solidão precisa ser apenas sentida, sem interpretação, sem pressa de cura. Porque ela traz mensagens sobre o que se perdeu, o que falta, o que ainda espera ser tocado. O corpo fala — e, se ouvirmos com cuidado, ele aponta caminhos de reencontro.


O Vínculo como Escolha

O contacto verdadeiro acontece quando há presença e liberdade. Os laços não nascem da fusão nem da dependência, mas de uma escolha consciente de estar com o outro sem deixar de estar consigo (Boadella & Boadella, 2013).


Por isso, o mesmo livre-arbítrio que nos revela sós, também nos possibilita o encontro. Quando respiramos com o outro, quando há um olhar que escuta, quando o corpo pode relaxar porque é visto — ali, há vínculo. E nesse espaço, a solidão transforma-se de ausência para presença partilhada (Höbl & Avritt, 2020).


Conclusão

Viver é habitar o corpo com verdade. É aceitar os silêncios como parte do processo. É aprender a carregar a solidão como um sinal — não de fracasso, mas de maturidade da alma.


E é, acima de tudo, permanecer disponível para o outro, não como quem procura salvação, mas como quem sabe que ninguém se salva só — e ninguém pode ser salvo de si mesmo.


A minha solidão não é uma busca, é um achado.

(Clarice Lispector, 1999)


Referências

Boadella, D. (1987). Biosynthesis: Somatic therapy and the personality. Routledge.

Boadella, D. (1992). Correntes de vida: Psicossomática e energia. Summus Editorial.

Boadella, D., & Boadella, S. (2013). Essentials of Biosynthesis: Psychotherapeutic Work with the Life Streams. International Institute for Biosynthesis Press.

Camus, A. (2012). O mito de Sísifo (A. S. Monteiro, Trad.). Record. (Obra original publicada em 1942)

Heidegger, M. (2012). Ser e tempo (F. Bezerra, Trad.). Vozes. (Obra original publicada em 1927)

Höbl, T., & Avritt, J. (2020). Healing collective trauma: A process for integrating our intergenerational and cultural wounds. Sounds True.

Jung, C. G. (1989). Memórias, sonhos, reflexões (A. H. M. Carvalho, Trad.). Nova Fronteira. (Obra original publicada em 1953)

Kierkegaard, S. (2000). O desespero humano: Doença para a morte (A. Ivo, Trad.). Vozes. (Obra original publicada em 1849)

Lispector, C. (1999). A descoberta do mundo. Rocco.

Reich, W. (1949). Character analysis (3rd ed.). Orgone Institute Press.

Sartre, J.-P. (2007). O ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica (P. Perdigão, Trad.). Vozes. (Obra original publicada em 1943)

Stern, D. N. (2004). The present moment in psychotherapy and everyday life. W. W. Norton & Company.

Van der Kolk, B. (2015). The body keeps the score: Brain, mind, and body in the healing of trauma. Penguin Books.


Catarina Lourenço de Carvalho

Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.

Especialização em Psicossomática, Epigenética, Trauma, Neurociência e Terapia de Casal.

Musicoterapeuta, Formadora e Supervisora Clínica.


Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.


📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677

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