Bullying: impacto psicológico e intervenção clínica
- Catarina Carvalho
- 20 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 21 de out. de 2025
O bullying é reconhecido como uma das formas mais persistentes de violência interpessoal entre crianças, adolescentes e adultos. De acordo com a Ordem dos Psicólogos Portugueses (2022), caracteriza-se por intencionalidade, repetição e desequilíbrio de poder, envolvendo atos físicos, verbais, psicológicos ou virtuais.
A nível global, o conceito foi sistematizado por Dan Olweus (1993), que o definiu como comportamento agressivo repetido que visa causar sofrimento e manter poder sobre a vítima.
Estudos de Peter K. Smith (2014) e Christina Salmivalli (2010) aprofundaram a compreensão das dinâmicas grupais e culturais, evidenciando que o bullying não é apenas um problema individual, mas um fenómeno relacional e sistémico, que reflete a forma como as comunidades educam, toleram ou reproduzem padrões de poder.
Em Portugal, dados recentes indicam que quase metade dos jovens esteve envolvida em comportamentos de bullying como vítima, agressor ou testemunha (Carvalho et al., 2020). Estes números reforçam a necessidade de uma abordagem integrada, que una investigação científica e prática clínica.
Dan Olweus (1993; 2013) estabeleceu três critérios fundamentais para identificar o bullying:
1. Intencionalidade (intenção de magoar ou dominar);
2. Repetição (ocorrência sistemática ao longo do tempo);
3. Desequilíbrio de poder (a vítima não consegue defender-se facilmente).
Nas últimas décadas, desenvolveu o Olweus Bullying Prevention Program que se tornou referência mundial, sendo aplicado em escolas de diversos países.
Salmivalli (2010) — criadora do programa KiVa em contexto escolar finlandês — introduz o papel das testemunhas e do grupo, mostrando que a dinâmica coletiva pode manter ou inibir o bullying. Rigby (2007; 2017) reforça esta perspectiva, propondo uma abordagem sistémica, em que toda a comunidade educativa é responsável pela mudança de normas sociais.
Bullying e trauma relacional
Judith Herman (1992) conceptualiza o bullying como uma forma de trauma relacional — uma experiência repetida de humilhação e desvalorização que atinge a integridade psicológica do self.
Para Allan Schore (2003), as interações de humilhação precoce afetam o desenvolvimento neuroafetivo, exigindo intervenções baseadas na regulação emocional e na reparação da vergonha. No que se refere ao bullying, Pepler e Craig (2007) destacam não só a importância da regulação emocional como também a empatia como fatores de proteção.
Já Espelage e Swearer (2004) descrevem o bullying como parte de um continuum de violência e vitimização, relacionando-o à homofobia, discriminação e assédio.
Cyberbullying e a era digital
O bullying através de meios tecnológicos é uma preocupação crescente. A maioria das vítimas não procura ajuda dos adultos mais próximos, com vergonha do que poderão pensar sobre elas e receio de perderem o acesso às tecnologias digitais (OPP, 2022).
Hinduja e Patchin (2015), em Bullying Beyond the Schoolyard, sublinham que o anonimato e a exposição pública amplificam o impacto psicológico e o sentimento de impotência da vítima.
A maioria das crianças e adolescentes considera que cyberbullying é a forma de bullying mais frequente. 23% considera ter-se sentido perturbado com a exposição a conteúdos negativos no último ano e 16% refere que “teve de fazer coisas que não queria fazer" (OCDE, 2019).
Intervenção em contexto clínico
A abordagem clínica deve privilegiar uma escuta empática e validante, criando um espaço seguro para a partilha. O psicoterapeuta deve:
Validar o sofrimento retirando culpa;
Avaliar sintomas de trauma (ansiedade, evitação, vergonha, somatizações);
Identificar fatores de risco e proteção;
Respeitar os limites do cliente e evitar retraumatização.
Nos casos de menores, deve-se conciliar o dever de sigilo com a proteção da vítima, comunicando situações de risco às entidades competentes (escola, tutela ou serviços de emergência).
Estratégias terapêuticas
Psicoeducação: normalizar emoções e desconstruir mitos (“o bullying não faz parte do crescimento”).
Regulação emocional: técnicas de grounding, mindfulness e treino de assertividade.
Reestruturação cognitiva: trabalhar crenças centrais (“sou inferior”, “ninguém me protege”).
Reforço da autoestima e autocompaixão.
Terapia de grupo ou familiar, quando adequado, para restaurar o sentido de pertença e suporte.
Intervenção com agressores: foco em empatia, autorregulação e responsabilização, sem estigmatização.
Cuidados éticos e de prática profissional
Na intervenção com situações de bullying, o psicoterapeuta deve adotar uma postura ética e sensível, consciente da vulnerabilidade emocional das pessoas envolvidas, reconhecendo que o bullying é uma experiência de desamparo e desvalorização relacional, exigindo uma relação terapêutica reparadora, que modele confiança, respeito e segurança. A aliança terapêutica é, neste contexto, uma ferramenta corretiva essencial.
É fundamental evitar a retraumatização, abordando memórias dolorosas de forma gradual e controlada, respeitando sempre o ritmo e os limites do cliente. O sigilo profissional deve ser preservado em todas as etapas do processo terapêutico, sendo quebrado apenas em situações de perigo iminente ou quando a integridade física e psicológica da pessoa estiver em risco.
Ao longo do acompanhamento, o psicólogo deve promover a autonomia e a autodeterminação do cliente, incentivando-o a reconhecer e desenvolver os seus próprios recursos internos de enfrentamento. A articulação em rede com escolas, famílias e entidades de apoio é essencial para garantir uma intervenção coordenada e eficaz, ampliando a proteção e o suporte à vítima.
Por fim, é importante reconhecer que o trabalho com casos de violência e exclusão pode gerar desgaste emocional significativo no terapeuta. Assim, torna-se indispensável cuidar também do profissional, por meio de supervisão clínica, partilha entre colegas e práticas de autocuidado que preservem a sua saúde mental e a qualidade da relação terapêutica.
Conclusão
O bullying é uma forma de trauma relacional com implicações significativas na saúde mental. A integração dos contributos de diversos autores demonstra que a compreensão e intervenção eficazes exigem uma abordagem sistémica, empática e baseada em evidência.
Em Portugal, a OPP tem reforçado a importância da educação emocional e da prevenção como ferramentas essenciais.
Cabe aos psicólogos e psicoterapeutas, em articulação com famílias e escolas, criar espaços seguros de diálogo, reconhecimento e reconstrução da autoestima, ajudando cada pessoa a reconfigurar a sua experiência de vulnerabilidade em crescimento e resiliência.
Referências bibliográficas
Carvalho, M., Branquinho, C., & de Matos, M. (2020). Cyberbullying and bullying: Impact on psychological symptoms and well-being. Child Indicators Research, 13(2), 651–664. https://doi.org/10.1007/s12187-019-09669-3
Espelage, D. L., & Swearer, S. M. (2004). Bullying prevention and intervention: Realistic strategies for schools. New York, NY: Guilford Press.
Herman, J. L. (1992). Trauma and recovery: The aftermath of violence—from domestic abuse to political terror. New York, NY: Basic Books.
Hinduja, S., & Patchin, J. W. (2015). Bullying beyond the schoolyard: Preventing and responding to cyberbullying (2nd ed.). Thousand Oaks, CA: Corwin Press.
Olweus, D. (1993). Bullying at school: What we know and what we can do. Oxford, UK: Blackwell Publishing.
Olweus, D. (2013). School bullying: Development and some important challenges. Annual Review of Clinical Psychology, 9, 751–780. https://doi.org/10.1146/annurev-clinpsy-050212-185516
Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico - OCDE (2019). Talis 2018 Results (Volume 1): Teachers and School Leaders as Lifelong Learners. TALIS OCDE Publishing, Paris. Disponível em https://doi.org/10.1787/1d0bc92a-en
Ordem dos Psicólogos Portugueses. (2022). Vamos falar sobre bullying. Lisboa: OPP.
Pepler, D. J., & Craig, W. M. (2007). Understanding and addressing bullying: An international perspective. Toronto, ON: PREVNet.
Rigby, K. (2007). Bullying in schools and what to do about it. Camberwell, VIC: ACER Press.
Rigby, K. (2017). The psychology of bullying: Towards a social-ecological explanation of bullying behaviour. New York, NY: Routledge.
Salmivalli, C. (2010). Bullying and the peer group: A review. Aggression and Violent Behavior, 15(2), 112–120. https://doi.org/10.1016/j.avb.2009.08.007
Schore, A. N. (2003). Affect dysregulation and disorders of the self. New York, NY: W. W. Norton.
Smith, P. K. (2014). Understanding school bullying: Its nature and prevention strategies. London: Sage.

Catarina Lourenço de Carvalho
Psicóloga (CP OPP 5357), com especialidade avançada em Psicoterapia Corporal Somática em Biossíntese.
Especialização em Psicossomática e Epigenética; Trauma e Neurociência; Bodynamic Analysis (níveis Foundation e Reorienting Birth); Terapia de Casal.
Musicoterapia (Mestrado), integrando uma forte ligação artística — é violinista e contralto.
Formadora, Professora e Supervisora Clínica.
Consultas para jovens, adultos e casais em sessões presenciais (Lisboa e Estoril) e online.
📱 WhatsApp: (+351) 964 775 677





















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